quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Outubro 2022 - outros filmes vistos

Nada de Novo no Front (2022 / Edward Berger)

Oscar bait raso e clichê que acompanha soldados sem propósito, apavorados e despreparados no campo de batalha, mostra uma série de situações violentas, desagradáveis, que vão só piorando até que o filme acaba. Tudo isso lindamente fotografado, mostrado com um tom vago de "crítica", como se isso já fosse o bastante pra tornar o filme positivo e passar alguma mensagem relevante. É um 1917 menos imersivo e sem o espetáculo técnico que era o seu grande diferencial.

Satisfação: 4

Categoria: NI / IC

Filmes Parecidos: 1917 (2019) / Dunkirk (2017)



Noites Brutais (Barbarian / 2022 / Zach Cregger)

2022 tem sido bom pro terror, e temos aqui mais um filme sólido do gênero, que só descamba na reta final, mas até lá oferece uma das narrativas mais instigantes, criativas estruturalmente, e alguns dos momentos mais cheios de mistério e expectativa que vi recentemente.

Satisfação: 7

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Sorria (2022) / Vigiados (2020) / O Telefone Preto (2022)



Ingresso para o Paraíso (Ticket to Paradise / 2022 / Ol Parker)

O filme até que não é péssimo, se passa num ambiente agradável, mas te dá a impressão de estar vendo uma retrospectiva de clichês dos anos 2000. Tudo é extremamente previsível, familiar, não criativo, como se o diretor achasse que a graça do cinema viesse justamente de repetir essas convenções cegamente, sem usar a imaginação — dá mais ou menos a sensação de estar numa festa de casamento típica, dessas onde as pessoas acham que o que legitima o evento é o fato delas se aterem a todos aqueles rituais ridículos como jogar buquê, agachar na pista na hora do "Your Song", etc.

Satisfação: 5

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Esposa de Mentirinha (2011) / Simplesmente Complicado (2009) / Seis Dias, Sete Noites (1998) / Comer, Rezar, Amar (2010) / Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo (2018)



Terrifier 2 (2022 / Damien Leone)

Comecei a ver só pra matar a curiosidade, achando que desligaria a TV indignado em menos de 30 min (o filme está sendo bastante comentado e muita gente parece chocada com o nível de violência) mas achei tudo muito engraçado — é o tipo de horror que comparo com trem-fantasma de parquinho, onde a violência é tão exagerada e fantasiosa que acaba sendo mais inocente que a mostrada em suspenses corriqueiros. O baixo-orçamento acaba trabalhando a favor do filme, não só porque torna a violência menos realista e mais fácil de assistir, mas também porque dá ao filme uma estética totalmente diferente da do terror mainstream; em vez de um produto que parece seguro, esterilizado, passado pelos filtros do sistema hollywoodiano, temos a impressão de algo saído de algum mercado alternativo onde as leis são desconhecidas, e que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento. A trama não tem pé nem cabeça, mas os set pieces de horror e os personagens carismáticos mantém a experiência interessante. O palhaço Art bebeu da fonte do It, mas é um dos poucos vilões recentes com potencial pra se tornar um novo ícone do gênero (e a garotinha fantasma também marca presença).

Satisfação: 7

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Uma Noite Alucinante 2 (1987) / A Centopéia Humana (2009) / It - Uma Obra Prima do Medo (1990) / A Hora do Pesadelo (1984)



Argentina, 1985 (2022 / Santiago Mitre)

Uma das experiências mais tediosas que tive esse ano. É o tipo de filme que se sustenta totalmente na relevância histórica/política dos fatos que ele reconta, e que só faz sentido pra quem já tem um grande interesse neste episódio da história da Argentina, e espera só uma ilustração respeitável, mas não que o filme seja envolvente por si só. É o típico filme burocrático, "fotografias de pessoas conversando", totalmente vazio em emoção, suspense, ou mesmo em ideias (não há uma discussão moral/ideológica desafiadora que torne o julgamento estimulante intelectualmente). O filme passa o tempo todo denunciando os horrores que certos militares cometeram contra inocentes durante a ditadura, mas nunca vemos uma dramatização desses horrores, nunca conhecemos de fato as vítimas, e nem os próprios vilões (que são apenas figurantes distantes no tribunal, nenhum com uma presença marcante tipo Jack Nicholson em Questão de Honra). Ricardo Darín é o herói que consegue colocar os culpados na cadeia, mas não vemos ele fazendo nada de brilhante ou memorável o filme todo. Dá a impressão que ele sai vitorioso no fim não por ter apresentado alguma prova inesperada, fatos incontestáveis, mas simplesmente por ter feito um discurso emocionalmente eloquente.

Satisfação: 3

Categoria: NI

Filmes Parecidos: Os 7 de Chicago (2020) / Marighella (2021) / Getúlio (2014) / O Clã (2015) / No (2012)



Adão Negro (Black Adam / 2022 / Jaume Collet-Serra)

A corrupção dos super-heróis já está tão normalizada que agora temos um filme onde os inimigos, durante a maior parte da história, são as pessoas que são a favor de justiça, enquanto o "herói" (que vive dizendo orgulhosamente que não se considera herói, mas é por quem o filme espera que a gente torça) é a favor de força bruta, adora matar pessoas jogando elas do alto feito um terrorista islâmico (o filme obviamente tenta agradar certos nichos da direita alternativa, desses que são anti-EUA). Roteiro enlatado, produção genérica, e até Dwayne Johnson está fora de sua zona de carisma tentando fazer cara de mau.

Satisfação: 3

Categoria: IC

Filmes Parecidos: O Esquadrão Suicida (2021) / Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016)



Hellraiser (2022 / David Bruckner)

Lembro muito pouco do antigo pra poder comparar, mas apesar de alguns problemas (principalmente no ato final), achei um dos filmes de terror mais decentes de 2022. Percebe-se um cuidado extra na fotografia, há alguns atores coadjuvantes interessantes (como Hiam Abbass e Goran Visnjic) que dão um toque de seriedade pra produção, e a própria versão feminina do Pinhead achei que funcionou (embora os Cenobites às vezes pareçam meio ridículos). Outro diferencial é que os vilões têm aquela qualidade grandiosa que marcava o terror dos anos 80, e o filme mostra uma batalha entre bem e mal sem um pingo de deboche, o que é raro hoje (ainda que a mocinha não seja das mais admiráveis pra representar o bem).

Satisfação: 6

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Halloween (2018) / Sorria (2022) / O Enigma do Horizonte (1997) / A Hora do Pesadelo (1984) / O Mistério de Candyman (1992)



Morte Morte Morte (Bodies Bodies Bodies / 2022 / Halina Reijn)

Mais um desses filmes que pegam um gênero popular dos anos 80/90 e o "modernizam" eliminando tudo aquilo que tornava o gênero interessante. Já discuti como muito da graça dos slashers vinha do contexto de um grupo de amigos atraentes num lugar divertido, se deparando com um vilão "maior que a vida", e uma mocinha inteligente e moralmente superior lutando por sua vida. Aqui não existe um vilão praticamente, e em vez de jovens gostáveis num lugar divertido, temos um grupo de amigos tóxicos, niilistas, moralmente corruptos, tomando decisões burras; pessoas que já parecem capazes de se destruir sozinhas mesmo sem a ajuda de um mal externo.

Satisfação: 3

Categoria: AI

Filmes Parecidos: Rua do Medo: 1994 - Parte 1 (2021) / Freaky: No Corpo de um Assassino (2020)



Abracadabra 2 (Hocus Pocus 2 / 2022 / Anne Fletcher)

Diverte principalmente pela Bette Midler, que continua tão energética no papel quanto em 1993. A história deste é mais fraca (não que a do primeiro seja um grande exemplo de narrativa), pois as bruxas são ressuscitadas e acabam não fazendo nada em Salem — não colocam nenhum plano maléfico em prática, a população em geral nem fica sabendo do retorno delas, o que dá a impressão do filme acabar sem que algo importante tenha acontecido. Outra coisa que prejudica o filme pra mim é a antipatia da nova "mocinha" Becca, que é dessas jovens da geração Z que parecem sempre emburradas, com um ar de superioridade moral (os estúdios parecem achar que pra ter um elenco diverso, eles precisam também tornar os personagens cínicos e politicamente autoconsciente). A produção é mais sofisticada que a do primeiro em alguns aspectos visuais, mas os voos de vassoura, por exemplo, parecem mais pobres aqui do que no antigo, que eram efeitos práticos muito legais, sem muita interferência digital.

Satisfação: 6

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Convenção das Bruxas (2020) / Matilda (1996)



Mais que Amigos (Bros / 2022 / Nicholas Stoller)

Tentativa não muito bem-sucedida de aplicar a fórmula Judd Apatow ao universo gay. Eu já não sou muito fã da fórmula nem quando ela é bem aplicada (há sempre os personagens losers, os toques escatológicos, a visão cínica de amor e sexo, etc. — sou mais as comédias românticas da Nora Ephron). Mas nesse caso, em vez de comediantes consagrados, grandes talentos do SNL ajudando, temos um protagonista que é pouco engraçado/carismático (pelo menos nesse tipo de papel), um casal sem química que não parece nada provável, e piadas que erram o alvo muito mais do que acertam.

Satisfação: 4

Categoria: IC

Filmes Parecidos: Doentes de Amor (2017) / Descompensada (2015) / A Festa de Formatura (2020)



Amsterdam (2022 / David O. Russell)

A trama é um pouco vaga e burocrática, não há um senso de urgência ou de pra onde o filme está caminhando tematicamente. Mas a trajetória em si não é chata — não só pelo elenco cheio de nomes famosos, mas porque o filme parte de um material sólido: o personagens centrais têm personalidades interessantes, os diálogos têm certa sofisticação, a guinada política no fim vem com ideias bem mais sãs que de costume... A violência e a ironia Tarantinesca são meio forçadas (a história não é fundamentalmente cômica, então as gracinhas parecem existir só pra dar um ar "cool" pra produção), mas pelo menos não é desses filmes onde o estilo é usado como substituto pra um roteiro vazio.

Satisfação: 7

Categoria: I-

Filmes Parecidos: Trapaça (2013) / O Lobo de Wall Street (2013) / A Grande Aposta (2015)

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Idealismo - Mapa de Valores

Uma ilustração que fiz baseada nos Diagramas Complementares e em alguns princípios básicos do Idealismo.

(Pra visualizar em tamanho grande, em alguns navegadores você precisa clicar na imagem, e depois que ela abrir, clicar de novo com o botão direito e pedir pra abrir a imagem numa aba nova).






quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Halloween Ends | Crítica

Halloween Ends crítica poster
Menos péssimo que a parte 2, mas ainda bem inferior ao "primeiro" lançado em 2018. Um dos problemas desse abuso atual de franquias em Hollywood, é que há um limite pro número de vezes que uma mesma situação pode se repetir, antes dos filmes começarem a parecer forçados e rotineiros. Daí eles tentam contornar a situação mudando o foco pra novos personagens e subtramas, que nunca são tão interessantes quanto a fórmula original (pense nos gafanhotos de Jurassic World Domínio). E como eles precisam manter os personagens clássicos pra atrair o público, fica sempre um meio-do-caminho frustrante. O filme não pode (ou não sabe) nem criar coisas novas que sejam mais interessantes que a fórmula original, e também não pode repetir mais uma vez a fórmula, afinal já estamos na 5ª sequência do reboot do reboot etc.

SPOILERS: 

Em Halloween Ends, temos de novo Laurie (Jamie Lee Curtis) e Michael Myers em cena, mas boa parte do filme foca em Allyson (neta de Laurie, que não tem peso como protagonista) e seu relacionamento com um rapaz perturbado chamado Corey, que é uma figura incômoda, pois não sabemos se deveríamos gostar dele, sentir pena, vê-lo como uma ameaça (principalmente na primeira metade). Todo o romance "underground" dos dois é meio ridículo, e traz um ar melancólico que destoa da série.

Felizmente, o diretor deu uma maneirada aqui no humor subversivo e na excentricidade gratuita que marcou a parte 2 (Laurie voltou a ser confiante e durona). Mas um tema que é avançado é a ideia de Myers não ser um vilão totalmente material, mas uma espécie de força maligna que se manifesta de outras formas, através de outras pessoas (uma mania do terror moderno, como disse na crítica de Sorria). Além de ser uma má ideia, o conceito é mal desenvolvido e deixa uma série de dúvidas na cabeça do espectador (Por que Corey tem uma ligação tão única com Myers? Ele é de fato "possuído" por ele?).

No trecho onde Corey começa a matar, há cenas de morte bem gráficas, mas que não têm tanto peso no filme, já que estamos vendo um copycat de Michael, que não tem a mesma presença e aura de mistério do original. No fim, essas divagações são deixadas de lado, e voltamos mais uma vez pro tradicional showdown entre Laurie e Michael, que aposta na violência, mas que não é particularmente marcante ou satisfatório narrativamente, considerando que este poderia ser o último embate entre os dois.

Halloween Ends / 2022 / David Gordon Green

Satisfação: 4

Categoria: IC

Filmes Parecidos: It - Capítulo 2 (2019) / Cemitério Maldito (2019) / Brinquedo Assassino (2019)

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Blonde | Crítica

Blonde 2022 crítica poster
Não é tanto uma cinebiografia de Marilyn Monroe quanto uma meditação visual sobre sua vida; um recorte sem compromisso com realismo, que boa parte do tempo foca em momentos aleatórios de sua intimidade, não em sua trajetória de sucesso. Assim como em Spencer, a ideia aqui é mostrar os horrores da fama, o preço que se paga pelo privilégio — vemos Marilyn chorando, sangrando, vomitando, sendo humilhada, abusada sexualmente, fazendo diversos abortos, e o filme termina com ela morta na cama. Não espere uma mensagem, um propósito maior pra isso tudo... É pura exploração da imagem de Marilyn, mas disfarçada por uma fotografia elegante, uma direção "conceitual". Apesar da apelação, o filme ainda consegue ser chato — não há uma narrativa envolvente, uma sequência de eventos que pareça estar caminhando pra algum lugar. Como exercício de estilo e fotografia, há ideias muito boas. Mas em termos de conteúdo, só deve achar graça mesmo quem se empolga com fofocas e com os infortúnios de celebridades.

Blonde / 2022 / Andrew Dominik

Satisfação: 4

Categoria: NI / AI

Filmes Parecidos: Spencer (2021) / Jackie (2016)

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Avatar | Crítica

Avatar 2009 crítica poster
Dei a nota máxima pra Avatar quando ele saiu em 2009, mas essa avaliação não resistiu tão bem ao teste do tempo. Depois de rever o filme algumas vezes, pude notar algumas coisas insatisfatórias em termos de narrativa, desenvolvimento de personagem, mensagem, e agora com o re-lançamento, resolvi ver o filme em IMAX 3D mais uma vez (o que realmente faz diferença) pra atualizar minha crítica.

A experiência continua extraordinária em muitos aspectos, principalmente nos primeiros 2/3 de filme, e tecnicamente, a produção parece mais avançada que qualquer coisa lançada nos últimos anos. A melhor parte de Avatar pra mim é a apresentação de Pandora, e as primeiras experiências do protagonista naquele mundo — Jake descobrindo as florestas, os animais, a geografia exótica... Quando ele começa a se integrar aos Na'vi e há todo aquele trecho com a escalada até as montanhas flutuantes (com a trilha fantástica de James Horner), o primeiro voo com o Banshee etc., o filme cria alguns dos momentos mais mágicos do cinema de fantasia/sci-fi, e foi provavelmente aí que eu decidi que ele merecia um 10 na época. Os problemas de Avatar começam quando a novidade de Pandora acaba e James Cameron precisa lidar com o resto da trama. Vou listar alguns pontos que acho problemáticos:

- Pra começar, não há uma boa introdução do protagonista Jake Sully. Os primeiros momentos da narrativa são um tanto apressados e confusos, como se um ato inteiro tivesse sido cortado e resumido pro filme não ficar longo demais. Em poucos minutos, já estamos em Pandora, tendo que absorver uma série de conceitos tecnológicos complexos, sem saber quase nada sobre o herói, seus valores, desejos, conflitos, etc. Assim como o Na'vi criado em laboratório, Jake é como um recipiente vazio no qual o espectador se projeta, mas há pouco vínculo emocional e pouco senso de quem ele é como indivíduo.

- A necessidade do programa Avatar é meio vaga e questionável. Qual a necessidade deles se disfarçarem de nativos, gastarem todo aquele tempo se integrando à cultura, quando os Na'vi já falam inglês, já sabem desde o início que Jake faz parte do "Povo do Céu", não é de fato um deles? Tudo isso só pro Jake levar a mensagem de que eles precisam sair dali, pois a Árvore-Lar será destruída? A Sigourney Weaver não poderia ter feito isso? Parece uma tarefa pouco crucial pra trama, até porque os humanos estão determinados a escavar o local com ou sem o consentimento dos Na'vi. 

- O romance entre Jake e Neytiri é outra coisa central da história que me parece pouco convincente ou empolgante; não só pela questão da diferença de espécie, ou pelo que falei sobre Jake ser meio genérico como personagem, mas também pelo fato de não haver honestidade entre eles — como é possível haver um amor autêntico entre duas pessoas quando uma delas é uma impostora e está escondendo coisas cruciais sobre sua vida, sem nenhum remorso ou auto-questionamento? Sinto falta de um vínculo entre Neytiri e o real Jake, em seu corpo humano, sem disfarces, antes da relação evoluir para um novo estágio.

- Não acho que funciona muito bem a ideia de Jake ser o "escolhido" aqui, até porque nenhuma razão é dada pra ele merecer tal honra. É daqueles personagens que devemos aceitar que são especiais por algum motivo, mas que na prática não fazem nada pra sustentar esta impressão. Além disso, acaba sendo um pouco incômoda a ideia de um gringo desinformado chegar numa cultura cheia de tradições e querer se provar o mais especial de todos ali. Pra um filme que quer ser tão "anti-imperialista" e respeitoso com outras culturas, é um toque no mínimo estranho, que não funciona tão bem quanto personagens como Neo ou Luke Skywalker se descobrindo os "escolhidos".

Pra mim o filme perde a graça mesmo no terceiro ato, quando os humanos começam a atacar o território dos Na'vi e Jake muda de time pra lutar ao lado dos nativos. Embora os Na'vi estejam certos em querer proteger seu lar, o filme não faz com que a gente goste de ninguém do povo deles, exceto Neytiri. Os pais dela e o resto da tribo parecem tão vilanescos e antipáticos quanto os antagonistas humanos. E do lado dos humanos, apenas o personagem do Giovanni Ribisi (Parker Selfridge) era um vilão odioso desde o começo. O espectador tem que de uma hora pra outra ver não apenas Selfridge como vilão (reparem no "Self" do nome), mas acreditar também que praticamente todos os humanos em Pandora são inimigos. Essa transição ocorre rápido demais, sem preparo, pois há um desequilíbrio no desenvolvimento dos dois núcleos da história: a parte de Jake descobrindo Pandora e aprendendo a viver com os Na'vi é bem explorada. Mas tudo que ocorre nas instalações da RDA com os outros humanos é apressado, deixado de lado no meio do filme (a relação de Jake com os antagonistas, os diários que ele grava, etc.) o que resulta numa batalha final sem força dramática, ambígua, onde você não tem uma resposta emocional clara e consistente a nenhum dos lados.

Quanto à mensagem ambientalista, Cameron sempre trouxe críticas à tecnologia e ao poder destrutivo do homem em seus filmes, mas essa é a primeira vez em que ele parece "anti-humano" de fato. Em filmes como O Exterminador do Futuro, Titanic, Aliens, O Segredo do Abismo, a ambição humana tem seus problemas, mas esses problemas ainda parecem evitáveis. Os filmes trazem um alerta, mas mostram a tecnologia e o progresso ainda sob uma luz atraente. Já em Avatar, o que é atraente de fato é a natureza, os povos indígenas, as forças místicas do universo. Não temos mais máquinas como objetos de desejo (a empilhadeira da cena icônica de Aliens aparece aqui como uma arma do vilão). Os homens e as máquinas é que viraram os aliens, as criaturas hostis, e isso é levado ao extremo no final quando Jake resolve renunciar à raça humana e virar um Na'vi (uma ideia que leva o conceito de escapismo um pouco além do que acho divertido).

Cameron acaba parecendo hipócrita de certa forma, pois ele é o mais tecnológico e ambicioso de todos os cineastas em atividade, vive explorando a natureza, mas daí faz um filme onde ele exalta a vida simples, livre de impacto no meio-ambiente, livre das invenções do homem moderno, o que soa tão autêntico quanto esses famosos que promovem um lifestyle "rústico", visitam vilarejos na África e postam fotos no Instagram ao lado de nativos, se achando a própria Dian Fossey, mas não aguentariam mais de 1 hora longe do iPhone e do ar-condicionado.

Avatar tem tantas ideias, momentos tão inesquecíveis, é tão imersivo visualmente, superior em tantos aspectos, que esses problemas ficam em segundo plano e não chegam a encobrir o espetáculo, mas em termos de roteiro e de mensagens, é provavelmente o mais imperfeito dos filmes de Cameron.

Avatar / 2009 / James Cameron

Satisfação: 8

Categoria: I-

Filmes Parecidos: O Segredo do Abismo (1989) / Jurassic Park (1993) / Guerra nas Estrelas (1977) / Duna (2021) / Jogador Nº 1 (2018)

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Sorria | Crítica

Sorria 2022 crítica poster
Um dos filmes de terror mais assustadores do ano. Conta a história de uma terapeuta que, após testemunhar o suicídio de uma paciente, recebe uma maldição em corrente no estilo It Follows, e passa a ser atormentada por uma força maligna que se manifesta na imagem de pessoas sorrindo. 

Costumo reclamar sempre dessas tramas psicológicas focadas na "cura emocional", mas a vantagem aqui é que, embora muitas das visões da personagem pareçam existir apenas na cabeça dela, a gente não sente que é tudo uma alucinação — as mortes do filme estão de fato acontecendo, mais ou menos como em A Hora do Pesadelo, o que impede a história de se tornar simbólica demais (embora o monstro aqui seja um tanto imaterial — algo típico do horror moderno, que resiste aos vilões personificados e icônicos dos anos 70/80).

Embora a trama seja interessante, ela não é das melhores em termos de "regras" e explicações para o fenômeno, o que se torna um pouco frustrante no terceiro ato. Mas o filme é bem dirigido, bem fotografado, transmite mais inteligência que a média (as conversas sobre psicologia soam reais e embasadas) e em termos de mistério/medo/jump scares, achei bastante satisfatório (os trabalhos de som e trilha sonora merecem uma menção especial).

Smile / 2022 / Parker Finn

Satisfação: 7

Categoria: I-

Filmes Parecidos: O Telefone Preto (2022) / Corrente do Mal (2017)

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Não Se Preocupe, Querida | Crítica

Não Se Preocupe Querida crítica poster
Drama sobre uma dona de casa americana nos anos 50 (Florence Pugh) vivendo numa comunidade experimental, que começa a suspeitar que há algo de errado com a realidade ao seu redor, e que a empresa na qual seu marido (Harry Styles) trabalha pode estar por trás de tudo.

Há um meme de Twitter que diz: "Imagina se eles fizessem um filme onde há uma cidadezinha suburbana que parece perfeita na superfície, mas daí descobrimos que há um segredo obscuro por trás!". A graça, pra quem não entendeu, é que a ideia é tão clichê que apenas um lunático pensaria ter dito algo interessante. Mas os roteiristas de Não Se Preocupe, Querida parecem ser exatamente essa pessoa.

Em vez de apresentar um conceito realmente criativo (como O Show de Truman), um mistério sólido, o filme fica apenas na superfície, repetindo cena após cena a mesma ideia de que a comunidade parece perfeita, mas "algo" sinistro se esconde por trás — sem se aprofundar nos personagens, sem ter uma crítica real ao American Way of Life. É o tipo de filme "interpretativo" que pra esconder a própria superficialidade e soar inteligente, deixa tudo vago, subjetivo, esperando que a substância venha toda das entrelinhas, não do que ele de fato apresentou.

Don't Worry Darling / 2022 / Olivia Wilde

Satisfação: 4

Categoria: IC

Filmes Parecidos: Corra! (2017) / Mãe! (2017) / Boa Noite, Mamãe! (2022) / Mulheres Perfeitas (2004) / Men (2022) / Foi Apenas um Sonho (2008) / A Origem (2010) / O Show de Truman (1998)

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

A Mulher Rei | Crítica

Quando soube que Viola Davis (com cinquenta e tantos anos) interpretaria uma guerreira africana num filme de ação intitulado A Mulher Rei, tive sérias dúvidas quanto ao projeto; parecia daquelas coisas com potencial pra ser uma grande bomba e manchar uma carreira tão digna quanto a de Viola. Ao mesmo tempo, se funcionasse, o filme poderia elevá-la a um outro nível de estrelato, e é exatamente isso que acontece — já na primeira cena, quando Nanisca (Viola) emerge lentamente do matagal com seu olhar ameaçador, sabemos que ela acertou em cheio e está no completo domínio do personagem, mesmo num papel tão improvável.

Antes da entrada de Viola eu já estava simpatizando com o filme — a teatralidade e o clima de fábula da narração inicial eliminaram minha maior preocupação, que era a do filme ser uma dessas produções raivosas de hoje que estão mais preocupadas em dar lição de moral no público do que em criar espetáculo.

O filme gira em torno das Agojie, guerreiras da África Ocidental que lutam (no filme, pelo menos) contra colonizadores e traficantes de escravos no século 19. A trama foca na relação entre a general Nanisca e uma jovem chamada Nawi (Thuso Mbedu, numa performance quase tão fenomenal quanto a de Viola), que foi deserdada pelo pai e entregue ao exército. A história é basicamente sobre a evolução da garota Nawi como guerreira, o estreitamento de seu laço com Nanisca, e o arco emocional da própria Nanisca, que tem um passado traumático e feridas emocionais que vêm à tona com a chegada de Nawi.

O filme mantém um equilíbrio excelente entre ação e profundidade emocional/desenvolvimento de personagem. E "equilíbrio" talvez nem seja o termo certo, pois o acerto aqui não tem nada a ver com ritmo ou com a frequência desses tipos de cenas, e sim como o fato delas estarem integradas: da ação (muito bem coreografada, por sinal) estar sempre conectada a personagens fortes e a um drama central interessante.

Quanto à imprecisão histórica, não é algo que vejo como problema. O filme tem um tom mitológico claro desde o começo, e é bem diferente de produções que se apresentam como relatos históricos sérios, com uma finalidade didática. Pra mim, o importante é que a história envolva, divirta, e tenha valores positivos — não que ela seja fiel a fatos jornalísticos ou que defenda certos símbolos/bandeiras. Embora superficialmente o filme pareça atacar o homem "civilizado", na realidade ele promove todos os valores iluministas que são a essência da cultura ocidental. Se você for ver, o filme se passa num mundo que respeita razão, liberdade, progresso, felicidade individual: reparem como no primeiro dia de treinamento, Viola deixa claro que as guerreiras podem ir embora se quiserem, que não se trata de um regime opressor. Em cenas onde a menina Nawi e outros personagens se rebelam contra as tradições e regras do reino (como o garotinho que espia as Agojie passando na rua), este ímpeto individualista/racional é usado pra torná-los mais carismáticos na história (é tipo o Maverick quando vai contra as normas da marinha e se prova mais eficaz). Viola é mostrada como empreendedora; incentiva a produção de óleo de dendê na região para que o reino possa se sustentar economicamente sem o tráfico de escravos (ao contrário do que alguns dizem, o filme reconhece sim que o Reino de Daomé traficava escravos — aliás, acho que é a primeira vez que vejo um filme mostrar que negros também capturavam escravos na África). Há muita fantasia, claro, mas isso não compromete o filme enquanto arte/entretenimento, da mesma forma que o fato de leões não cantarem não compromete O Rei Leão. O filme evita também uma visão tribal/racista do conflito — não é desses filmes onde 100% dos homens são maus, e 100% das mulheres são boas, onde caráter é definido por nacionalidade, etnia, sexo etc. Temos homens que são bons, outros que são maus; mulheres que são fortes, outras que são fracas (baseadas em suas próprias escolhas); e o principal vilão nem é um colonizador, e sim um general africano. 

Ou seja, é uma história tradicional de bem vs. mal, focada nas virtudes das protagonistas (não na demonização do inimigo), com uma mensagem positiva, e o filme tem ótimas qualidades de produção, grandes performances da dupla central, com Viola Davis apresentando uma das heroínas mais icônicas do cinema recente.

The Woman King / 2022 / Gina Prince-Bythewood

Satisfação: 8

Categoria: I

Filmes Parecidos: Gladiador (2000) / Mulher-Maravilha (2017) / As Viúvas (2018)

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Moonage Daydream | Crítica

Documentário de Brett Morgen sobre David Bowie que vem sendo aclamado por público e crítica, e inclui imagens inéditas, além de ser o único documentário endossado pelo espólio de Bowie. O filme tem um ar experimental, não muito jornalístico; o único senso de estrutura vem da cronologia, mas o conteúdo está mais pra uma colagem abstrata de imagens, performances musicais, com a voz de Bowie ao fundo filosofando sobre a vida e sobre sua carreira. Eu nunca fui particularmente fã de Bowie, mas o respeito como estilista, artista visual, e admiro seu senso de individualidade. Em geral, o que me distancia do rock enquanto gênero é a agressividade, o apelo à malevolência, mas Bowie não era particularmente desagradável nesse sentido — ele expressava primeiramente uma obsessão pelo diferente, pelo estranho (socialmente), e pelo não-objetivo (intelectualmente). É aí que às vezes vejo aquela combinação de ingenuidade e pretensão que discuto no texto Pseudo-Sofisticação — pra ele, a genialidade e as grandes respostas da vida estavam todas além deste plano, no campo do irracional, e sua vida parece ter sido uma eterna busca por esse tipo impossível de transcendência, o que dá um caráter meio vazio e melancólico pras suas indagações. 

O momento que mais gostei do documentário foi o do final dos anos 70, começo dos anos 80, quando ele lança músicas como Heroes, Modern Love e Let's Dance (Heroes foi lançada em 1977, num período emblemático para o Idealismo e para os heróis no entretenimento). Claro que para alguns críticos, nessa fase ele estava se "vendendo", cedendo ao comercialismo americano (o próprio Bowie se refere a algumas composições desta época como menores, por serem "óbvias" e reforçarem sentimentos positivos). Não acho que ele foi inautêntico, mas é interessante pensar até que ponto Bowie tinha uma visão artística sólida, inabalável, e até que ponto ele era apenas um camaleão, se transformado de acordo com as tendências de cada época (como a maioria dos músicos), e mantendo apenas a essência da sua persona: nos anos 60 ele tinha uma vibe meio Beatles, nos anos 70 ficou psicodélico e subversivo como muitos, nos anos 80 ficou dançante e alegre — todos esses estilos eram o que atraíam os jovens de cada momento; o fato da fase "alegre" ser a única vista como comercial/menos autêntica revela apenas um bias Anti-Idealista comum na cultura.

Moonage Daydream / 2022 / Brett Morgen

Satisfação: 6

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Boa Noite, Mamãe! | Crítica

Minha crítica do filme original de 2014 já resume bem minha opinião sobre este remake americano desnecessário, estrelando a Naomi Watts. O filme mostra dois garotos gêmeos chegando numa casa de campo pra ficar com a mãe, mas se deparando com uma figura bem diferente da mãe que eles lembravam; não só em comportamento, mas também por ela estar com o rosto todo enfaixado após uma cirurgia plástica. A partir daí, uma série de eventos estranhos começam a ocorrer.

SPOILERS: O problema do filme é que ele só faz algum sentido se você já sabe do final e está acompanhando a narrativa só pra ver como o cineasta despista a plateia cena após cena pra não entregar a surpresa. Pra quem pega a história desinformado, é uma narrativa monótona, inconvincente, e o suspense em torno da mãe não faz sentido algum. E não só a surpresa é mal guardada (eu, que não sou bom de ficar adivinhando reviravoltas, sempre achei óbvio que a mãe nunca se dirige a um dos irmãos), como o filme continua chato mesmo quando você já sabe do fim. Não há nada de brilhante ou original na forma como o filme lida com o irmão (ainda mais no remake), e também não é como O Sexto Sentido, que tem uma boa trama de terror, personagens cativantes, falas icônicas, vários momentos de tensão (onde você realmente acredita que aquilo está acontecendo), e o final surpresa é apenas a cereja do bolo. Aqui falta o bolo; falta a história em si ser interessante, ter conteúdo, gerar envolvimento. Se acreditássemos que a mãe fosse de fato uma impostora ou estivesse possuída por algum demônio, o filme teria uma situação mais sólida. Mas fica claro que ela não é nada disso, e que toda a história é "simbólica", um terror "psicológico" desses que estão na moda, onde nada precisa ser convincente, ninguém precisa agir de maneira plausível, pois tudo é apenas uma representação de um trauma. (Pra entender o que há de errado com esse tipo de abordagem, recomendo meu post Simbolismo e Filmes Interpretativos.) O filme apenas finge se interessar por psicologia, por temas complexos, mas seu interesse mesmo está apenas no gimmick e nos plot-twists que a psicologia barata oferece pra esse tipo de história.

Goodnight Mommy / 2022 / Matt Sobel

Satisfação: 3

Categoria: IC

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