domingo, 9 de fevereiro de 2020

Outros filmes vistos - Fevereiro 2020

O Homem Invisível (The Invisible Man / 2020): 8.5 - Suspense fantástico que dá uma roupagem meio Dormindo com o Inimigo (1991) pra história clássica de H.G. Wells.




Modo Avião (2020): 6.0 - Bem clichê e formulaico, mas transmite bons valores e é realizado com competência, o que já é um destaque pra um filme brasileiro (claro que é tudo uma desculpa pra Larissa Manoela exibir seu carisma, que é o que acaba carregando o filme).





Maria e João - O Conto das Bruxas (Gretel & Hansel / 2020): 3.0 - O cineasta tem um senso estético interessante (poderia ser um bom diretor de videoclipes, ou de ensaios de moda), mas infelizmente não percebe que há muito mais por trás de um bom filme do que imagens estilosas.





Sonic: O Filme (Sonic: The Hedgehog / 2020): 6.0 - Bonitinho e bem intencionado, embora artisticamente não seja muito mais ambicioso do que um episódio do Papa-Léguas na TV. Não é o desastre que se esperava pelo primeiro trailer, e ainda serve pra matar a saudade das caretas do Jim Carrey.





Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn / 2020): 5.0 - Visual bonito, Margot Robbie está divertida... Em geral fico incomodado com filmes que esperam que a gente torça por vilões, mas aqui não achei tão problemático pois o filme não leva a personagem a sério (não glamouriza o mal de forma tão grave quanto Coringa, e também não vira uma auto-paródia estilo Deadpool). Ainda assim achei difícil de me importar por alguém, pela trama, por qualquer coisa. Fica um senso de indiferença ao final da sessão - o que pelo menos já é um avanço em relação a Esquadrão Suicida.







Taylor Swift: Miss Americana (Miss Americana / 2020): 6.5 - Taylor tenta nos convencer de que ela cansou de ser uma boa garota, e por isso agora resolveu se posicionar politicamente, defender causas de esquerda, como se isso fosse sinal de rebeldia, independência intelectual. Mal sabe ela que até a Barbie defende causas de esquerda hoje, e que no fundo essa mudança só mostra que ela continua presa à necessidade de parecer uma boa garota: você não pode continuar sendo uma "boa garota" na cultura atual se você não fizer oposição a Trump, não se mostrar lutando pelas minorias, etc. Apesar dessa narrativa meio forçada, o documentário tem momentos interessantes quando foca na trajetória de sucesso de Taylor, no processo criativo, nos impactos psicológicos da fama, etc.





Midway - Batalha em Alto-Mar (Midway / 2019): 5.5 - Filme com jeitão de anos 90, que nos lembra tanto do aspecto divertido quanto do lado ruim dos blockbusters daquela época (excesso de clichês, personagens unidimensionais, etc). Mas como guilty pleasure até que não é ruim.





Klaus (2019): 6.5 - Foi o que achei mais legal entre os 5 indicados ao Oscar de Melhor Animação. Há algumas mensagens ruins (o filme podia muito bem ter sido uma celebração do empreendedorismo, mas ele tenta misturar isso com uma filosofia de altruísmo, o que não funciona tão bem - o protagonista chega a ser vilanizado por ter algum tipo de interesse pessoal no negócio de entregar brinquedos - não ser 100% altruísta como Klaus). Ainda assim é um roteiro bem elaborado, que cria uma história de origem interessante pro Papai Noel.





Link Perdido (Missing Link / 2019): 4.0 - Visualmente bonito, mas o trio central não tem muita química e a história não é das melhores (fica difícil se interessar tanto pelo objetivo do aventureiro, que quer ganhar respeito de homens que ele mesmo despreza, quanto pelo objetivo do Pé Grande, que quer encontrar sua tribo, mas está claramente indo atrás da tribo errada). Irrita também o problema do Herói Envergonhado - a tentativa de passar uma mensagem de heroísmo, integridade, determinação, ao mesmo tempo em que o filme apresenta os protagonistas como losers, figuras atrapalhadas, inseguras, nem um pouco inspiradoras.





Os Órfãos (The Turning / 2020): 3.5 - Apenas mais um amontoado de clichês pra preencher a cota de filmes de terror que estreiam todo mês. É o que costuma acontecer com diretores de videoclipe quando resolvem dirigir um longa: os cenários ficam incríveis, o visual dos atores também, mas a história é péssima e nada funciona num nível emocional. Se for pra ver uma adaptação de "A Volta do Parafuso", fiquem com o clássico de 1961 Os Inocentes.

sábado, 11 de janeiro de 2020

Outros filmes vistos - Janeiro 2020

Perdi Meu Corpo (J'ai perdu mon corps / 2019): 4.0 - Costuma sempre ter 1 animação estrangeira mais "artística" entre as finalistas pro Oscar, da qual eu não costumo gostar muito. Essa aqui conta uma história desconexa e interpretativa sobre um garoto que tem sua mão decepada enquanto vive um amor não-correspondido. É um quase romance entre 2 pessoas comuns, não muito interessantes, que transmite uma visão de mundo cinzenta bem típica do cinema francês. Autoral demais pro meu gosto.





Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood / 2019): 7.5 - Quando começou, achei um pouco frustrante e enganoso o fato do filme não ser uma biografia de Fred Rogers (como o pôster sugere), e sim a história de um jornalista que vai escrever um artigo sobre ele e acaba tendo sua vida transformada. Não me importei tanto pelos dramas pessoais do jornalista, mas no momentos em que Rogers está em cena, o filme é um retrato fascinante de uma personalidade única, de uma generosidade quase sobre-humana, e Hanks está perfeito no papel.




O Caso Richard Jewell (Richard Jewell / 2019): 6.5 - Tenho um pouco de preguiça desses filmes atuais de Clint Eastwood que são sempre histórias reais de americanos comuns que arriscam suas vidas pra salvar outros americanos de desastres e ataques terroristas. Não acho que esse tipo heroísmo torne alguém automaticamente interessante como foco de um filme, e o compromisso com as histórias reais às vezes impede Clint de criar uma narrativa satisfatória, dramática, surpreendente o bastante, como é o caso de Richard Jewell, que prende a atenção na maior parte, mas acaba tendo um desfecho um pouco morno, nunca atinge os picos de tensão que uma obra de ficção atingiria. Ainda assim é um filme decente, provavelmente o melhor dele desde Sniper Americano (2014).





1917 (2019): 8.0 - É daqueles filmes que você admira mais pela técnica e pela enorme dificuldade de realização do que pelo conteúdo em si. Não há personagens muito memoráveis, uma mensagem interessante, uma narrativa particularmente prazerosa, mas é um show tão incrível de direção, produção, fotografia, que a cada 5 minutos você se vê perguntando "como eles fizeram isso?". É uma experiência imersiva, um espetáculo audiovisual estilo Dunkirk, porém feito com inteligência e uma noção superior de cinema.









Jumanji: Próxima Fase (Jumanji: The Next Level / 2019): 5.0 - Não basta ser sequência de um remake, o filme ainda copia vários elementos de Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), refletindo a crise de imaginação e criatividade em Hollywood. É uma aventura bem intencionada, fácil de assistir, mas a pobreza do roteiro e a completa falta de estímulo intelectual me deixaram entediado na poltrona apesar de toda a ação física rolando na tela.




Judy: Muito Além do Arco-Íris (Judy / 2019): 4.0 - Biografia ofensiva, rasa, pobre em roteiro, sem o menor respeito por quem foi Judy Garland. É um desses filmes medianos que saem todo ano apenas como veículos pra atores ganharem prêmios, como foi Hitchcock, Sete Dias com Marilyn, Diana, A Dama de Ferro, onde todo o foco é a performance central (a intenção é sempre a mesma: não celebrar talento, mas expor os males do sucesso, da fama, do poder). Não dá pra dizer que Renée está mal, mas os dentes falsos e a voz ruim para canto (por que não chamaram uma dubladora?) incomodam em vários momentos, então pra mim não chega a ser a performance do ano.




Apollo 11 (2019): 7.5 - Não é um documentário com grandes méritos criativos pois ele consiste apenas de imagens de arquivo da missão Apollo (imagens sensacionais, devo dizer, algumas nunca antes vistas), mas não há novos conteúdos criados pra esse filme em particular (tirando trilha e algumas animações explicativas), não há nem uma narração pra tentar dar um novo ângulo pro evento. Mas talvez nem precisasse mesmo, pois a realidade da missão é tão fantástica que as imagens falam por si mesmas. Vale no mínimo como um documento histórico impressionante, me senti realmente testemunhando a missão pela 1ª vez.




Jojo Rabbit (2019): 3.5 - Não dei 1 risada sequer, Taika Waititi me parece extremamente equivocado na ideia de que humor é seu ponto forte. O filme tem sérios problemas de tom, não consegue achar um equilíbrio satisfatório entre comédia e drama, e no fim não funciona nem como um, nem como outro. Vale no máximo como um exercício em excentricidade no estilo Wes Anderson (mas sem o mesmo requinte visual).




Adoráveis Mulheres (Little Women / 2019): 8.0 - História um pouco Naturalista, focada no retrato de uma época, sem uma narrativa muito forte, porém perfeitamente produzido, atuado (melhor elenco que vi esse ano), a trilha sonora é lindíssima e o final satisfatório compensa algumas das mensagens menos otimistas que absorvemos ao longo da história. Merecidas as 6 indicações ao Oscar.









O Escândalo (Bombshell / 2019): 7.0 - Me lembrou um pouco Spotlight (2015); é um daqueles filmes que apesar de terem uma pauta de esquerda e atacarem alguns símbolos do conservadorismo, não são tão polarizadores, daqueles que agradam apenas os militantes de um lado ou de outro. O roteiro consegue apresentar o problema de forma equilibrada, e o que vemos são apenas mulheres íntegras, lutando honestamente contra um problema real. Destaque pras 3 atuações centrais e pra John Lithgow também.







Frozen II (2019): 6.5 - Alguns dos meus problemas com o primeiro filme foram amenizados aqui; Elsa não é mais aquela princesa rancorosa e niilista, as canções se encaixam melhor na narrativa... A força do filme está nos elementos de fantasia (há algumas ideias ótimas como o cavalo de água) e também nos momentos musicais "showstopper" de Elsa. Não é grande coisa, as mensagens continuam bem duvidosas, mas dá pra aproveitar como um divertimento despretensioso.









quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Joias Brutas

Desde Irreversível (2002) não via um filme tão repulsivo e incômodo em termos de técnica (direção, edição, fotografia, e principalmente som). Claro, isso não é nenhum acidente - o filme foi cuidadosamente planejado pra gerar o máximo de desconforto no espectador, não só através da técnica, mas também do conteúdo, nos mostrando personagens decadentes sempre gritando uns com os outros, passando por situações desagradáveis, estressantes, agindo de maneira autodestrutiva e irracional, tudo isso apresentado para o espectador da maneira mais caótica e de mau gosto possível. Nas minhas postagens sobre Idealismo eu discuto como Objetividade é a qualidade mais fundamental que aprecio na arte, e como os bons filmes conseguem transformar a realidade (frequentemente confusa) em algo ordenado, claro, simplificado, digerido para nossas mentes e nossos sentidos. O que esse filme faz de propósito é justamente o oposto - criar um nível de caos e desorientação sensorial que não encontramos nem nas situações mais estressantes do dia a dia. Descartando a hipótese dos cineastas serem simplesmente sádicos e niilistas, uma explicação mais generosa seria aquilo que discuto na postagem Pseudo-sofisticação - tentar enxergá-los apenas como diretores pretensiosos e imaturos que acham que subverter as regras é uma virtude em si, que ir contra o desejo da plateia, causar desprazer e incômodo prova algum tipo de capacidade ou sofisticação intelectual, simplesmente por ir contra o óbvio.

Em termos de conteúdo / mensagem o filme nem é tão condenável quanto eu esperava. Ele conta a história de um vendedor de joias endividado, fazendo uma série de jogadas e apostas arriscadas pra recuperar seu dinheiro, mas se enfiando num buraco cada vez maior no processo. O joalheiro é uma caricatura do judeu que só pensa em dinheiro e está disposto a abrir mão de qualquer escrúpulo para obtê-lo (se os próprios cineastas e Adam Sandler não fossem judeus, o filme provavelmente seria considerado antissemita ao extremo). Inicialmente parecia que ia ser um ataque ao capitalismo, ao dinheiro, aos ricos em geral (uma das primeiras cenas do filme é a câmera entrando dentro de uma pedra preciosa e isso se transformando em imagens da colonoscopia do protagonista, o que disparou meu alerta vermelho) porém o filme não chega a generalizar - e em vez de uma crítica ao capitalismo em si, ele acaba sendo uma crítica mais centrada na obsessão por dinheiro e na falta de escrúpulos de certas pessoas, o que é válido. O grande problema mesmo é a direção revoltante e a falta de elementos positivos. Mostrar um personagem desprezível pra criticá-lo não é errado - mas ainda não é o bastante pra gerar uma experiência enriquecedora para a plateia (ainda mais quando o filme tenta criar certa empatia por ele - não deixa claro que condena o personagem totalmente). Na ausência de heróis, de coisas para admirar, é apenas uma experiência incômoda. Barry Lyndon (1975) é uma boa prova de que, pra falar sobre pessoas desagradáveis, o filme em si não precisa ser desagradável.

Uncut Gems / EUA / 2019 / Benny Safdie, Josh Safdie

NOTA: 2.0

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O Farol


Um dos filmes mais aclamados do ano (do diretor de A Bruxa) mas que não passa de um exercício bobo de estilo, de visual, sem conteúdo, sem trama, sem sentido - algo que pertence mais a uma galeria de arte moderna, a uma exposição fotográfica ou desfile de moda do que a uma sala de cinema. O mais irritante é que fica clara a pretensão do cineasta de parecer "cerebral", inteligente. Stanley Kubrick é um dos cineastas mais influentes da história, e muitos cineastas jovens (como Robert Eggers) parecem admirá-lo, mas o que me frustra é que praticamente todos esses "descendentes" de Kubrick acabam espelhando apenas as características superficiais dos filmes dele (imitando o estilo visual, fazendo referência a cenas específicas, usando efeitos sonoros similares, estilos de atuação) e o que falta em todos eles é justamente aquilo que tornava Kubrick grande - sua enorme inteligência e respeito pela racionalidade (tanto dele quanto da plateia). Sim, os filmes de Kubrick tinham um senso estético forte, mas isso nunca vinha em primeiro lugar - seus filmes sempre priorizavam conteúdo, história, ideias - e a notável inteligência era o que integrava todos os elementos (inclusive as decisões estéticas) e os tornavam bons filmes. Mesmo cineastas como Ingmar Bergman ou Andrei Tarkovsky (que também parecem inspirar Eggers) apesar de não serem tão objetivos quanto Kubrick, ainda se baseavam em conteúdo, intelecto, tinham algo interessante a dizer, não eram apenas decoradores focados em imagens estilosas e impressões sensoriais. É como pensar que se você imitar o penteado de Albert Einstein, usar roupas parecidas, e colocar a língua pra fora, você estará de alguma forma mais próximo de sua genialidade.


The Lighthouse / Canadá, EUA / 2019 / Robert Eggers

NOTA: 3.0

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Outros filmes vistos - Dezembro 2019

Minha Mãe É uma Peça 3 (2019) - 7.0

Dois Papas (2019) - 5.0

História de um Casamento (2019) - 7.0

Entre Facas e Segredos (2019) - 6.0

Meu Nome é Dolemite (2019) - 5.5

As Golpistas (2019) - 7.5

Downtown Abbey (2019) - 4.0

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Cats

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- A produção é boa em termos de direção de arte, fotografia. Os efeitos nem são tão ruins - os gatos são bizarros, mas isso é mais um problema de design do que da qualidade do CGI.

- O começo já não funciona muito bem. Teria sido melhor mostrar como era a vida da Victoria antes dela ser abandonada, apresentar a personagem, o universo dela, os desejos dela, pra daí acontecer a reviravolta e ela ir parar no mundo dos gatos "Jellicle". Do jeito que acontece, não há nenhum contraste entre o que ela era antes e o que ela será agora. É apenas mais uma gata se juntando a um grupo de gatos... Não há uma diferença fundamental entre ela e os "Jellicle". Não é como uma pessoa normal descobrindo um mundo fantástico, tipo Dorothy em O Mágico de Oz. Se Dorothy já fosse uma criatura igual às do mundo de Oz, tipo uma "mulher de lata", não haveria surpresa descobrir esse novo mundo.

- Toda a sequência da gata gordinha (Rebel Wilson) merece um lugar na lista dos piores momentos da história do cinema. Não só o CGI dela ficou ainda mais bizarro que o dos outros gatos, como a parte dos ratos e das baratas dançando é de um mau gosto indescritível.

- As músicas são fracas, e são usadas de maneira ruim - não avançam a história, não surgem em contextos adequados dramaticamente. Até porque não há história nem narrativa (literalmente!). O filme é apenas uma sequência de gatos se apresentando.

- Emoções Irracionais: um dos problemas fundamentais que tornam Cats um musical ruim, é a tentativa de criar significado através de emoções diretamente, não através de história, conteúdo. O filme não tem enredo, protagonistas, não tem personagens bem construídos, são apenas gatos aleatórios se apresentando um atrás do outro... No entanto, o filme espera que o espectador se emocione profundamente a cada cena, só porque todos os gatos indicam que agora é um momento de sentir algo... "Oh, aí vem a velha Deutoronomy!!", e de repente estão todos boquiabertos, chorando, uma música grandiosa começa a tocar, entra a Judi Dench com um olhar solene, e o filme espera que a gente ache tudo comovente e épico, sendo que até 1 minuto atrás nem sabíamos quem era essa personagem, não havia expectativa nenhuma pra esse momento. O mesmo acontece com a principal canção do musical ("Memory") que no fim é uma cena totalmente vazia, apenas uma música aleatória no meio de tantas outras, que "soa" pomposa e importante simplesmente por qualidades melódicas, não porque o momento em si é importante.

- Os vocais do filme são ruins. Provavelmente o diretor Tom Hooper usou a técnica de fazer os atores cantarem ao vivo no set, assim como ele fez em Os Miseráveis, o que acaba estragando as músicas (principalmente as mais românticas). É um compromisso desnecessário com realismo, ainda mais quando se trata de um filme sobre gatos com rostos humanos, braços e pernas. A "protagonista" Francesca Hayward foi contratada por ser bailarina, mas ela não é cantora profissional, o que dá pra perceber.

- Não há nenhum suspense ou interesse em descobrir qual será a "escolha Jellicle". O filme não tem protagonista de fato, ninguém pra gente torcer, não apresenta nenhum conflito interessante.

- O musical da Broadway pra mim nunca teve muita graça. Talvez a única coisa que explique a popularidade e longevidade da peça, é o fato dela parecer ter sido escrita em função dos atores, pra agradar profissionais do meio teatral, afinal a peça dá oportunidade pra 20 atores diferentes (magros, gordos, brancos, negros, jovens, velhos, bailarinos clássicos, sapateadores) terem sua canção solo, seu momento pra bilhar no palco. É perfeito pra audições, ou como plataforma pra atores mostrarem suas habilidades, mas pra plateia não faz o menor sentido.

- Embora o filme seja fantasioso, no fim ele é profundamente Naturalista, não só pela ausência de trama e pelo foco em caracterizações, mas também pela maneira como ele caracteriza os gatos: em vez dos gatos representarem arquétipos universais, valores morais com os quais o espectador possa se identificar, eles são apenas gatos específicos, com nomes exóticos, hábitos particulares. Quando você assiste um filme tipo A Bela e a Fera, por exemplo, você se interessa pelos personagens pois, através de suas ações, eles vão se tornando símbolos de bondade, ou maldade, ou ganância, ou independência, e com base nisso você vai passando a torcer por um, por outro, vai desejando ou temendo que algo aconteça na história. Aqui o filme fica apenas descrevendo vários personagens e suas particularidades irrelevantes que nada interessam à plateia: gato X gosta de fazer tais coisas, se veste de tal jeito, fala com tais maneirismos... gato Y tem outras peculiaridades... Isso é mais próximo do cinema Naturalista, que espera que a gente se interesse pelos personagens não com base em valores, mas porque é importante conhecer outros povos, pessoas com hábitos diferentes, dar visibilidade a outras culturas, etc.

- Quando a Judi Dench chega pra avaliar os gatos e decidir qual será o escolhido, em vez de mudar a estrutura do filme, ele apenas continua a apresentar gatos inéditos. Nem faz sentido. A gente passou 1 hora e meia vendo gatos se apresentando, mas eles não estavam se apresentando diante da Judi Dench ainda, apenas para a plateia e para os outros gatos Jellicle. A Judi Dench só chegou depois e não viu esses primeiros gatos. Então no final, não deveria acontecer uma apresentação / resumo de todos eles pra ela poder avaliar? Ela vai basear a escolha dela só nesses últimos gatos que ela pôde assistir? E todos os outros?

- É estranho o momento da Taylor Swift... Pra que toda essa entrada triunfal, sendo que no fim a música é sobre o Macavity, e ela seria apenas uma assistente introduzindo ele? Não faz sentido ela roubar a cena dessa forma, sendo uma personagem tão secundária (claro, pra uma atriz de musical principiante que quer ter seu momento no palco deve fazer muito sentido ter essa cena).

- Péssimo esse final com teletransporte, o mágico amador tendo que se provar pra resgatar a Judi Dench daquele bote... Deve ser um dos artifícios de trama mais aleatórios já escritos.

- Péssima a performance final de "Memory", que supostamente seria o momento mais bonito do filme. Os vocais são cheios de defeitinhos e toques realistas (deixados de propósito), sem falar na expressão feia da Jennifer Hudson, no ranho escorrendo do nariz o filme inteiro. É a noção de que o que é visceral e imperfeito é mais "belo". E por que ela é a escolhida no final? Não há nada de especial nela em comparação com os outros gatos... A única "virtude" dela é ela se parecer com uma mendiga, aparentar ser a mais sofrida... E segundo as regras do altruísmo, quem sofre mais merece todas as honras, mesmo que não tenha qualidades positivas.

- Judi Dench é uma grande atriz, mas está sofrendo aqui pra cantar. Toda essa sequência após a escolha do gato parece arrastada e anticlimática.

Cats (Reino Unido, EUA / 2019 / Tom Hooper)

NOTA: 1.0

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Star Wars: A Ascensão Skywalker

Bem melhor que o subversivo Os Últimos Jedi, e achei melhor até que O Despertar da Força. Mas nada ainda que eu consiga admirar em comparação com os clássicos. Deve existir tanta pressão numa produção como essa, tanto dinheiro envolvido, tantos executivos e fãs pra agradar, que realmente não sobra muito espaço pra inovação, surpresa, riscos... Embora J.J. Abrams faça um bom trabalho e a produção seja riquíssima (que privilégio é ver um filme com trilha do John Williams, production design do Rick Carter) em termos de conteúdo acaba sendo um filme sem personalidade, que joga no seguro, busca apenas agradar os fãs trazendo os elementos familiares da saga pra sentirmos que estamos de volta ao mundo de Star Wars - aquela sensação que temos ao visitar uma atração da Disney (e isso ele faz muito bem), mas fora do contexto da nostalgia, do fan service, não há um filme memorável, um roteiro bem escrito, grandes ideias... Pelo menos em termos de valores o filme me pareceu bem intencionado (o tom é mais leve, mais parecido com o dos clássicos - C-3PO em particular tem uns momentos ótimos) o que sugere que o Episódio 8 foi apenas uma aberração (culpa provavalmente de Rian Johnson) e não parte de um plano maléfico da Disney de corromper o espírito da saga.

Star Wars: A Ascensão Skywalker / EUA / 2019 / J.J. Abrams

NOTA: 7.0

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Outros filmes vistos - Novembro 2019

A Vida Invisível (2019) - 1.0

Um Dia de Chuva em Nova York (2019) - 6.0

Ford vs Ferrari (2019) - 8.0

Campo do Medo (2019) - 4.0

Brinquedo Assassino (2019) - 4.5

domingo, 17 de novembro de 2019

O Irlandês

Não sou exatamente fã do gênero, principalmente pela falta de trama desse tipo de história - esses filmes costumam ser mais uma coleção de crônicas sobre a máfia (altamente dependentes de diálogos) o que os tornam meio arrastados em termos de narrativa... Mas também pelo foco em personagens maus - não fica claro o que o espectador deve extrair de positivo disso tudo, por que ele deveria se importar por essas pessoas. É preciso ter um certo fascínio por criminosos pra realmente aproveitar essas sagas. Dito isso, o filme é lindamente executado, riquíssimo em diálogos, atuações, técnica cinematográfica.. o uso de tecnologia pra rejuvenescer os atores faz a gente sentir que está vendo um clássico perdido dos anos 70/80... então pra quem é cinéfilo e curte coisas como GoodFellas, O Poderoso Chefão, é um prato cheio.

The Irishman / EUA / 2019 / Martin Scorsese

NOTA: 7.0

Doutor Sono

Sobre o novo Exterminador do Futuro, comparei o filme a uma performance de karaokê mal feita. Doutor Sono seria algo melhor: uma performance de American Idol super produzida, tecnicamente brilhante, até artística, mas que ainda assim não deixa de ser uma imitação que depende totalmente do brilho da criação original (pra quem não sabe Doutor Sono é uma sequência de O Iluminado). Os cenários e a fotografia são dignos de Oscar, talvez a reprodução mais fiel e detalhista do universo de outro filme que já vi (só isso já vale o ingresso pros cinéfilos). O problema está mais na história, nos personagens, que não têm o mesmo apelo e simplicidade que tinham no filme do Kubrick (não curti muito os vampiros de olhos brilhantes, também acho que alguns trechos do roteiro ficaram mal desenvolvidos como a parte com os idosos que explica o título, etc). Mas não deixa de ser um experimento interessante que vale a pena conferir.

Doctor Sleep / EUA, Reino Unido / 2019 / Mike Flanagan

NOTA: 6.0