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sábado, 5 de dezembro de 2009

Abraços Partidos


Abraços Partidos é um melodrama com elementos de film noir e suspense (uma das sub-tramas envolve um garoto com uma câmera que de cara nos remete a Peeping Tom (1960), que inclusive é citado no filme). Mas um filme de Almodóvar não tem gênero, assim como um filme de David Lynch ou de Fellini não tem gênero. É um universo próprio; como sempre, vão ter prostitutas, traições, drogas, acidentes trágicos, personagens gays, pessoas obsessivas e vermelho - muito vermelho!

Esta história em particular se passa em torno de uma problemática produção cinematográfica. Acho interessante que muitos diretores que também escrevem roteiros acabam criando histórias que se passam no mundo do cinema, ou então personagens que sejam escritores, atores, etc. Nada mais natural - Almodóvar faz filmes há mais de 30 anos e este é certamente o assunto que mais domina.

Penélope Cruz está muito bem, como sempre que trabalha com ele. Mas a maior performance do filme acho que é a do próprio Almodóvar por trás das câmeras. Ele é um desses diretores exibidos que estão sempre chamando a atenção do público pro aspecto da direção - mas ele faz isso com estilo e sempre nos momentos certos. Há uma demonstração brilhante numa sequência onde o cineasta dentro do filme assiste a uma montagem ruim do longa que está produzindo; apenas um grande diretor como Almodóvar poderia mostrar a mesma cena 2 vezes; uma mal dirigida e a outra bem dirigida!

Abraços Partidos talvez não seja tão brilhante quanto Volver, seu último trabalho, mas ainda assim é um filme pra todo mundo ver. Tem alguns cineastas que são simplesmente incapazes de serem desinteressantes.

Los Abrazos Rotos (ESP, 2009, Pedro Almodóvar)

INDICADO PARA: Todo o público adulto.

NOTA: 7.5

domingo, 22 de novembro de 2009

Do Começo ao Fim


Pra quem não conhece, esse é o polêmico filme sobre os irmãos gays que vivem uma relação incestuosa. Desde que o trailer caiu na internet, virou a promessa de um Brokeback Mountain brasileiro; um filme que iria quebrar tabus e transformar o cinema nacional.

Mas acabou sendo uma das experiências mais dolorosas e constrangedoras que eu já passei numa sala de cinema. Não me lembro de um caso mais extremo onde um trailer tão forte resultou numa coisa tão horrorosa. Até me cansa pensar sobre o filme, porque tem tanta coisa errada nele que pra dizer como ele poderia ter funcionado seria preciso escrever uma teoria completa do cinema.

O filme tem 2 problemas principais: roteiro e direção. Mas isso, pra citar um amigo meu, é como chegar pra alguém e dizer "só mudaria 2 coisas em você: sua personalidade e sua aparência"! Tudo na tela está errado, principalmente o elenco. Os atores talvez não sejam tão péssimos como estão aqui, mas se o texto é forçado, se os enquadramentos estão errados, se a luz e a trilha sonora vão contra a cena, o que os coitados podem fazer?

E o problema não é só o que está na tela, mas principalmente o que não está. Cadê a história? Cadê os conflitos? Cadê a parte onde os dois começam a desenvolver a sexualidade? Cadê a reação dos pais quando pegam os filhos juntos pela primeira vez? Cadê os amigos e conhecidos da família - e o que eles acham disso tudo? A mãe, que serviria como o centro emocional da história, é eliminada logo no primeiro ato. Nunca vi um filme que fugisse tão furiosamente do próprio assunto que escolheu tratar. E o impensável - não há nenhuma cena de sexo! É um roteiro acéfalo, subdesenvolvido, medroso. Um fracasso tão completo que provavelmente não irá agradar nem ao público gay que já estava completamente vendido. O filme vai realmente do começo ao fim, sem em nenhum momento passar pelo meio.

Do Começo ao Fim (BRA, 2009, Aluízio Abranches)

INDICADO PARA: Fujam deste filme e não comentem com ninguém.

NOTA: 2.5

sábado, 21 de novembro de 2009

Lua Nova


Acho que a maior força deste filme é também seu maior problema - Taylor Lautner (o lobisomem que briga pelo amor de Bella) é muito mais interessante que o vampiro Robert Pattinson! Não só por ele ser mais atraente (e isso não sou eu que estou falando; basta ouvir os gritos no cinema quando Lautner tira a camisa - não ouvi nenhuma reação semelhante voltada pra Pattinson, nem no primeiro filme). Mas o set-up do romance deles é muito melhor. No primeiro filme, Bella bate o olho no vampiro e já está apaixonada, só por ele ser charmoso e misterioso. Com o lobisomem, a gente consegue entender melhor a natureza da atração. Os dois já se conhecem há bastante tempo; agora o menino está malhado e mais bonito... Há também uma tensão pelo fato do garoto ser mais novo que ela... Eles começam a se encontrar, fazer coisas juntos... A gente se envolve e acaba torcendo mais por este romance (que é palpável, realista, leve), do que pelo amor cafona de Pattinson que está sempre gemendo e soltando frases bregas como "Você já me dá tudo ao respirar!". Então nos entediamos no terceiro ato, pois Lautner tem que sair de cena e ficamos apenas com Pattinson citando Shakespeare.

Tirando isso, o filme é claramente superior a Crepúsculo em vários sentidos. Parte porque a história é melhor, parte porque tiraram a desengonçada diretora Catherine Hardwicke e colocaram Chris Weitz no lugar, que apesar de ter errado feio em A Bússola de Ouro, sabe contar uma história e tem algum senso de cinema. Eu não queria gostar do filme, mas minha atitude já foi abalada logo nos créditos iniciais - uma sequência de título cuja simplicidade e elegância me lembrou à do clássico Alien - O 8º Passageiro.

The Twilight Saga: New Moon (EUA, 2009, Chris Weitz)

INDICADO PARA: Meninas de todas as idades. Proibido para meninos adolescentes.

NOTA: 7.0

Código de Conduta


Suspense de vingança onde um único homem (Gerard Butler) planeja destruir o sistema judicial corrupto dos EUA que permitiu que o assassino de sua esposa e filha fosse solto. A sacada é que na maior parte do filme Butler está na cadeia, e mesmo assim consegue caçar um a um os envolvidos, sem que ninguém entenda como.

É um desses filmes de "planos perfeitos", e a história é envolvente do começo ao fim. Mas há um problema: lendo essa sinopse, você logo imagina Butler na posição do mocinho íntegro lutando pelos seus direitos. Mas não é bem assim. Apesar de entendermos a motivação do personagem (afinal, o que pode ser mais revoltante que assistir sua família sendo assassinada?), ele faz coisas tão desagradáveis e violentas que perde completamente a empatia que tínhamos no início. E o "vilão", que seria o promotor (Jamie Foxx), começa a não parecer tão errado assim.

Não sei se eles quiseram fazer um filme propositalmente ambíguo, pra parecer mais "complexo", mas se foi isso deu errado. Algumas coisas são melhores quando são preto-no-branco.

Law Abiding Citizen (EUA, 2009, F. Gary Gray)

INDICADO PARA: Homens. Quem gostou de Um Crime de Mestre, Busca Implacável, O Fugitivo, etc.

NOTA: 6.0

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Amor Pede Passagem


Comédia romântica escrita e dirigida pelo estreante (no cinema) Stephen Belber sobre um gerente de motel (Steve Zahn) no interior do estado do Arizona que se apaixona por uma mulher (Jennifer Aniston) que viaja pelo país vendendo quadros baratos para hotéis e empresas... Desses bem safados que a gente vê em consultório médico.

É um filme simpatiquinho sobre pessoinhas vivendo suas vidinhas e seus probleminhas. Eu tenho horror a esse tipo de filme, e sempre fico me perguntando o que motiva um cineasta a investir um ano de sua vida num projeto que provocará menos emoções no público que uma ida casual à padaria. Também é um mistério o que atraiu nomes como Jennifer Aniston e Woody Harrelson - se o filme acabado é completamente morno e esquecível, imagine isso no papel! O filme passou despercebido nos EUA e não faturou nem 1 milhão de dólares, apesar da popularidade de Aniston (sempre desconfie de um filme com um mega astro e que você nunca ouviu falar!).

Management (EUA, 2008, Stephen Belber)

INDICADO PARA: Pacientes em hospitais que não possam rir nem se emocionar muito. Quem gostou de Garçonete, Amantes, etc.

NOTA: 4.0

sábado, 14 de novembro de 2009

2012


Quem entrar na sala pra ver um show de efeitos especiais e cenas de ação espetaculares terá seu ingresso justificado logo após os primeiros 30 minutos de filme (que segue pra completar quase 3 horas de projeção). Acho que nunca houve um filme catástrofe tão completo e grandioso como este. Diferente de Terremoto ou Twister, onde uma única força da natureza é responsável pela tragédia, a premissa de 2012 permite várias catástrofes simultâneas - terremotos, vulcões e ondas gigantes para citar as principais. É algo que o diretor Roland Emmerich (de Godzilla e Independence Day) já havia explorado em O Dia Depois de Amanhã - que foi mais fraco pois além de ter uma desculpa menos convincente (o aquecimento global), tinha um roteiro inferior e metade do orçamento de 2012 (estimado em 260 milhões de dólares!). As imagens são de uma complexidade que eu nunca tinha visto antes. Os efeitos de Transformers 2, por exemplo, foram sofisticados - mas eram totalmente desinteressantes! Neste filme a tecnologia é eficaz - ela se traduz em queixos caídos na platéia.

Esqueça a premissa tola que motiva o filme (toda a baboseira de alinhamento galáctico e explosões solares). O filme não está tentando convencer ninguém seriamente de que estes eventos possam ocorrer em 2012 (se bem que com tanta gente que acredita em horóscopo, homeopatia e coisas ainda mais irracionais que 2012, não duvido que o filme contribua pra uma onda de pânico semelhante à do Bug do Milênio). Mas o fim do calendário Maia é apenas um pretexto para a ação e o show de efeitos - uma desculpa tão boa e ingênua quanto a de que Godzilla surgiu de uma mutação genética provocada por testes nucleares. Se por um lado o filme poderia ter sido mais interessante se entrasse de verdade na discussão e levantasse argumentos sólidos a favor dos Maias, por outro lado poderia correr o risco de soar tolo como Presságio, ou então de ficar completamente datado a partir de 2013!

2012 (EUA, 2009, Roland Emmerich)

INDICADO PARA: Todos os bem humorados.

NOTA: 8.0

Coco Antes de Chanel


O filme irá agradar menos àqueles que estiverem indo atrás de um filme sobre moda do que àqueles que estiverem indo atrás de um bom filme apenas. Não espere grandes desfiles, segredos revelados, detalhes sobre o estilo e técnica de Chanel. O filme é sobre a mulher. Ele foca muito mais nas questões pessoais de Coco do que nas profissionais. E mesmo assim, é um filme envolvente e até emocionante. Audrey Tautou está perfeitamente adequada no papel. Coco é determinada, independente, realista. Ela usa seus relacionamentos amorosos como oportunidades pra subir na vida; e faz isso com tanta naturalidade que você nem se atreve a achar que há algo de errado. Esse personagem forte e bem construído é o coração do filme. Acompanhamos Coco desde que era bem jovem fazia apresentações musicais em casas de quinta categoria. Ela vai em frente, desviando da prostituição, e eventualmente começa a fazer chapéus - não como alguém que recebe um raio de inspiração e descobre um talento divino. A arte não parece ser seu destino final. Ela não fica em nenhum momento deslumbrada com seu próprio talento. Moda é um negócio, um mercado. Ela quer dinheiro, e ela tem as ferramentas necessárias para consegui-lo. Arte é um efeito colateral. Essa visão de Chanel pode parecer um pouco "fria" e sem glamour, mas acho que é exatamente esse realismo que torna o filme convincente.

Preciso elogiar também Anne Fontaine pelo cuidado com a imagem. Tenho um fetiche especial por planos abertos - daqueles bem enormes e estáticos onde os personagens viram pequenos pontos na tela - e Fontaine me presenteou com vários neste filme. Mais um ponto pras cineastas mulheres!

Coco Avant Chanel (FRA, 2009, Anne Fontaine)

INDICADO PARA: Mulheres e fãs de moda e de biografias. Quem gostou de Piaf - Um Hino ao Amor (claro que este é bem mais light!).

NOTA: 7.5

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Besouro


Uma tentativa brasileira de fazer um filme mais "pop", que mistura ação e artes marciais com história, capoeira e mitologia afrobrasileira. Se apenas eles tivessem um bom roteiro...

O filme tem uma narrativa confusa, ambígua. Você nunca sabe se está acompanhando uma história, um sonho, se tudo não passa de uma metáfora... Me parece o trabalho de um cineasta dividido; querendo inovar por um lado, mas se torturando por ser muito comercial. Este é o problema no Brasil; os caras que sabem se comunicar com o povão, têm mau gosto. Os que tem bom gosto, têm receio de serem comerciais. São duas tribos que não se misturam. Enquanto essa ponte não for feita, não haverá entretenimento de qualidade por aqui.

Besouro (BRA, 2009, João Daniel Tikhomiroff)

INDICADO PARA: Capoeiristas.

NOTA: 4.5

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Julie & Julia


Julie & Julia é bastante original ao contar 2 histórias diferentes (que estão relacionadas, mas que nunca se cruzam de fato - algo meio As Horas) pra passar uma mesma mensagem. Uma é a história de Julia Child (Meryl Streep), que foi a mais famosa cozinheira da TV americana. Outra é a de Julie Powell (Amy Adams, a Encantada), uma jovem mulher que décadas depois escreve um blog sobre os pratos de Julia e faz bastante sucesso - este é o primeiro longa-metragem importante baseado num blog!

Dizem que Meryl Streep vai ganhar o Oscar por este filme - a Academia está devendo um pra ela que, apesar de já ter ganho 2 vezes, perdeu outras 13! Outro motivo é que esse ano aparentemente não há candidatas muito fortes na categoria. Não é uma performance de grandes momentos, mas de grandes sutilezas. Meryl muda completamente a postura, o jeito de andar e de falar, e ainda assim consegue fazer parecer natural; ela prova mais uma vez que é um dos grandes gênios da representação. Quem escreveu e dirigiu o filme foi Nora Ephron (Sintonia de Amor, Mensagem para Você), que eu considero uma das únicas cineastas mulheres competentes. Ela faz o que precisa ser feito: a história está bem contada, as performances estão na medida e as imagens de comida estão entre as mais bem fotografadas que eu já vi. Não passava tanta fome desde A Festa de Babette!

Julie & Julia (EUA, 2009, Nora Ephron)

INDICADO PARA: Público feminino; pessoas interessadas em culinária.

NOTA: 8.0

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

This Is It - Michael Jackson


Já disse aqui que Michael sempre foi meu grande ídolo. Então está subentendido que tudo que está nesse documentário pra mim é de uma importância que transcende o próprio cinema. Até porque existe pouco material de Jackson por trás das câmeras, o que torna essas imagens ainda mais preciosas. O jeito que ele dirige os músicos pra chegar ao som que imaginou (incrível que com 45 anos de carreira, ainda existe dificuldade de se comunicar com os músicos!), a forma que ele lida com os problemas técnicos, a insegurança, o cuidado em preservar a voz (que está surpreendentemente em forma).

Mas o principal é poder ter uma noção do que seria esse espetáculo que agora jamais veremos (eu tinha ingressos para o dia 8 de Setembro e estava prestes a comprar a passagem quando Michael morreu). Ver as novas idéias que ele iria incorporar nesse modelo ideal de show que é mais ou menos o mesmo desde a turnê Bad de 1986 (os shows foram ficando cada vez maiores e mais caros, mas o essencial, a estrutura básica sempre foi a mesma e não iria mudar aqui). Fiquei embasbacado com a sequência de The Way You Make Me Feel, que foi inspirada possivelmente em West Side Story (nunca li isso em nenhum lugar, mas tenho certeza que Michael era fã de WSS e usou muito do musical em seus vídeos como Bad, The Way You Make Me Feel e principalmente Beat It).

Sem palavras para descrever o vídeo criado para a apresentação de Smooth Criminal, que é frequentemente o melhor número de seus shows (estranho não fazerem nos ensaios a famosa inclinação para frente que "desafia" a gravidade)

O documentário é o registro de um gênio e prova que Michael iria voltar tão grande quanto sempre foi - mas o documentário em si é genial? Nem tanto, como documentário é apenas bom; Kenny Ortega é brilhante e fez o melhor que pôde pra transformar as imagens dos ensaios em um longa-metragem eficiente. Mas teria sido preciso produzir conteúdo novo após a morte de Michael (como entrevistas com amigos, músicos, membros da equipe) pra ter um documentário 100% satisfatório, que fosse independente de seu assunto. Vou torcer pro DVD ter horas de extras.

This Is It (EUA, 2009, Kenny Ortega)

NOTA: 8.5

Bobeou Dançou / Ela Dança com Meu Ganso


Este é o novo filme da família Wayans (agora além de irmãos tem sobrinhos, tios, cada um numa função). É uma paródia de musicais e filmes de dança como No Balanço do Amor e Flashdance. Este não pertence àquela série de filmes toscos como Espartalhões e Deu a Louca em Hollywood - os Wayans são os autores de Todo Mundo em Pânico, As Branquelas e O Pequenino - não que estes sejam considerados obras de arte (muito pelo contrário, estão sempre levando os Framboesas de Ouro), mas eu tenho que defendê-los! Os Wayans levam humor realmente a sério. Embora falte um cineasta de verdade ali que saiba traduzir as piadas em imagem (muitas delas resultam ridículas simplesmente por serem mal executadas), eles fazem o trabalho com paixão e isso faz toda a diferença. Marlon Wayans pra mim é um dos atores mais carismáticos atualmente e tem um potencial que é muito mal aproveitado... Ou seja, por trás da tosquice óbvia do filme, acho que há talento e algo verdadeiro que deveria ser pelo menos reconhecido.

Agora... Será esse o pior título de todos os tempos? Gostaria de entrevistar o indivíduo responsável por essa tradução (uma brincadeira com Ela Dança, Eu Danço que já era uma tradução horrorosa!). Como foi o processo criativo? Será que alguém é pago pra isso? Distribuidoras, me chamem que eu faço de graça!

ADENDO (07/02/10): Será que alguém me escutou? O título do filme foi alterado para Bobeou Dançou!

Dance Flick (EUA, 2009, Damien Dante Wayans)

INDICADO PARA: Um dia que você estiver se sentindo bobo.

NOTA: 6.0

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Te Amarei Para Sempre


História de amor baseada no livro de Audrey Niffenegger sobre uma garota que se apaixona por um homem que viaja no tempo inexplicavelmente (e incontrolavelmente).

A história nos remete a filmes como o clássico O Retrato de Jennie, Em Algum Lugar do Passado ou até o mais recente A Casa do Lago. Mas enquanto esses outros filmes conseguiram achar uma linearidade emocional dentro da não-linearidade da história, Te Amarei Para Sempre se perde nos saltos de tempo e em sua falta de coerência. A platéia fica confusa, sem saber quais são as regras do jogo (por exemplo, ao mesmo tempo que o personagem de Eric Bana diz que não pode mudar o passado pra salvar a mãe, ele faz isso em várias outras ocasiões e até engravida Rachel McAdams!). O filme não estabelece as regras, e o romance acaba nos parecendo distante, como se tivéssemos pego a história pela metade; não sentimos o que eles sentem, um pouco porque o filme fala de um amor impossível de se relacionar; mais ou menos como o caso de Benjamin Button (curiosamente, foram Brad Pitt e Jennifer Aniston que compraram os direitos do livro; Pitt aparece aqui como produtor executivo). Ou seja, apesar de algumas sacadas interessantes da história, o roteiro é mal adaptado e o resultado é mediano. Não funciona nem chega a ser ruim. Parte da culpa é de Eric Bana que é inexpressivo e só fica mais à vontade quando tira a roupa.

The Time Traveler's Wife (EUA, 2009, Robert Schwentke)

INDICADO PARA: Quem gostou de Benjamin Button pelo lado emocional (não pra quem admirou a produção).

NOTA: 5.0

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Desinformante


Novo filme de Steven Soderbergh (Traffic, Erin Brockovich, Onze Homens e Um Segredo, etc) baseado na história verídica de Mark Whitacre, executivo de uma grande empresa da agroindústria que vira informante do governo americano.

O paradoxo entre o título original (que seria "O Informante") e a tradução "O Desinformante" indica o principal motivo desse filme não funcionar muito bem. A história é narrada em tom cômico, e o personagem de Matt Damon é completamente gostável durante a maior parte do filme. Ele nos é apresentado como um homem de família, levemente excêntrico, completamente honesto e bem intencionado. É esta personalidade que torna o filme fluido e nos mantém interessados na trama. Sem esta figura simpática, o filme seria apenas burocracia. Só que em determinado momento, percebemos que Matt não era nada daquilo que imaginávamos. É exatamente o oposto; um cara execrável, mau caráter e filho da puta! Essa decepção da platéia é tratada de forma completamente insensível pelo diretor Soderbergh, que continua dirigindo o filme como se fosse sobre um malandro carismático como Frank Abagnale Jr. de Prenda-Me Se For Capaz. Isso põe em questão o caráter do próprio cineasta e praticamente estraga um filme que poderia ter sido uma comédia decente na linha de Queime Depois de Ler, ainda que não tão boa.

The Informant! (EUA, 2009, Steven Soderbergh)

INDICADO PARA: ?

NOTA: 5.0

sábado, 17 de outubro de 2009

Distrito 9

Sucesso de público e crítica, Distrito 9 (produzido por Peter Jackson, de O Senhor dos Anéis) é visto como uma ficção-científica completamente original e que também traz uma mensagem sobre os direitos humanos, fazendo uma alegoria do Apartheid.

De original eu garanto que não há muito. O filme é uma colagem de idéias de outros filmes melhores como O Dia Em Que a Terra Parou, Aliens, A Mosca, Independence Day e Cloverfield.

Quanto à mensagem, é algo tão vago e antigo que provavelmente está em um dos dez mandamentos. O filme começa apresentando uma premissa bastante elaborada em forma de "mockumentary" (falso documentário), sobre um projeto do governo de acabar com uma favela de extraterrestres no meio de Joanesburgo - mas em pouco mais de 20 minutos percebemos que era tudo um pretexto pra iniciar uma sequência de ação confusa e apelativa que basicamente é o resto do filme inteiro.

Acho que as pessoas em geral ficam impressionadas com o fato de um filme de ET's tratar de temas sérios como guerra e segregação racial, e a partir disso assistem o filme inteiro com atenção e um certo ar de respeito, mas não vêem que esses temas "sérios" foram colocados ali de maneira artificial, apenas para confundi-las e ganhar essa nota de respeitabilidade (é um pouco o problema de Bastardos Inglórios, que pelo menos tem certa beleza cinematográfica enquanto esse aqui parece mais uma galeria de imagens feias - alguém entendeu a escolha do ator principal?!).

Quando o filme quer discutri seriamente um tema, ele te dá argumentos sólidos, você sai da sala com idéias específicas, pode discutir com seus amigos, as pessoas vão ter opiniões sobre o que foi afirmado... Este filme não é sobre o Apartheid, ele só quer dar a impressão que é, o que pra mim é extremamente desonesto. Mas aviso que as pessoas têm gostado.

District 9 (EUA/NZ, 2009, Neill Blomkamp)

INDICADO PARA: Quem gostou de O Nevoeiro. E quem curte esses vídeos no YouTube com OVNI's falsos.

NOTA: 3.0

sábado, 10 de outubro de 2009

Bastardos Inglórios


O novo filme de Tarantino é longo, entediante, e absolutamente vazio - há uma sensação de futilidade, de falta de importância e de significado envolvendo cada cena do filme. Me lembrou o Spielberg quando começou a querer ficar mais sério em A Cor Púrpura - ele não tinha maturidade e também não entendia nada do assunto; apesar disso A Cor Púrpura foi um grande filme porque tinha emoções genuínas e profundas. Não dá dizer o mesmo desse...

Pegue a sequência inicial - um oficial nazista visita uma casa onde uma família de judeus se esconde sob o piso. A cena é longa, com movimentos de câmera coreografados e bem pontuados, tudo feito de maneira precisa e habilidosa com a intenção de criar suspense. Mas a cena não tem força pois tanto o dono da casa quanto os judeus são vagos pra platéia, não temos nenhum envolvimento com eles (e também não temos a impressão de que Tarantino se importa realmente pela questão dos judeus). Esse sentimento se estende por todo o filme; uma sucessão de conversas longas que quase sempre terminam em tiroteio, que é sempre a saída mais fácil. Não há um personagem central; o filme não é sobre ninguém... E também não é sobre ideais ou valores. O melhor personagem é o vilão, mas não há um contraponto, um herói igualmente forte. Nem os "bastardos" formam um grupo tão interessante assim que mereça o título do filme.

Tarantino é bom pra paródias, filmes de ação, coisas assumidamente rasas que ele transforma em filmes de primeira. Aqui ele tentou fazer algo quase sério mas faltou maturidade - faltou se importar de verdade pelo material. O amor de Tarantino pelo cinema e pelos filmes dos outros fica claro em cada plano, em cada referência; mas ele não investe o mesmo interesse em seus próprios personagens. O filme foi um sucesso de público graças a Brad Pitt (que está ridículo, 100% do tempo com as sobrancelhas curvadas pra cima, se escondendo atrás de uma única expressão de deboche).

O longa parece mais uma homenagem de luxo a esse universo cinematográfico de Quentin Tarantino. Pra mim é o seu mais fraco até agora; só que o filme termina com uma cena de efeito e arranca um aplauso final da platéia - que sempre cai nesse truque e sai vibrando da sala achando que foi tudo genial.

Inglourious Basterds (EUA/ALE, 2009, Quentin Tarantino)

INDICADO PARA: Quem gostou de A Espiã, Planeta Terror, O Albergue 2...

NOTA: 5.0

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A Onda


Filme alemão onde um professor de colegial faz uma experiência incomum com seus alunos para ensinar os mecanismos do fascismo, demonstrando na própria sala de aula que ele ainda não morreu e pode voltar a acontecer a qualquer momento.

Uma sinopse interessante, mas que o filme não chega a realizar de maneira satisfatória. O filme é irritante, da mesma forma que Ensaio Sobre a Cegueira foi irritante: ele quer provar que o ser humano é mau e corrupto, porém não tem nem os argumentos nem a sensibilidade para fazê-lo. Em apenas alguns dias os alunos de A Onda já estão totalmente transformados, saindo pelas ruas pixando muros, vestindo uniformes e fazendo a saudação nazista. Adolescentes normais de classe média jamais dariam tanta importância pra qualquer coisa que se passasse dentro da escola. Eu não estava acreditando em nada, até que me lembrei de um detalhe: no começo do filme apareceu na tela "baseado numa história real"! Ué... Como um filme baseado numa história real pode parecer falso? Eu já vi filmes sobre coelhos assassinos que me pareceram razoáveis! E aqui está o porque: no cinema a realidade dos personagens importa muito mais do que a realidade dos acontecimentos. Se você acredita no personagem, você acredita na história. E A Onda pode muito bem ter sido baseado numa história real, mas certamente não foi baseado em pessoas reais.

Die Welle (ALE, 2008, Dennis Gansel)

INDICADO PARA: Quem gostou de Edukators, etc.

NOTA: 4.5

domingo, 12 de abril de 2009

2012: Science or Superstition?


Tenho ouvido falar muito sobre o tal apocalípse de 2012 e resolvi pegar este documentário pra saber do que se trata (ou pelo menos pra ter algo pra falar no elevador). Soube então que 21 de Dezembro de 2012 marca o fim do calendário Maia, e supostamente também o fim da civilização como a conhecemos (não entendi direito por que o simples fato do calendário terminar significa que o mundo também irá acabar; pra mim seria o mesmo que olhar um mapa de São Paulo e assumir que a Rodovia Ayrton Senna termina num barranco). De qualquer forma, peguei o filme bem intencionado, com vontade de acreditar. Mas logo ficou claro que a base "científica" usada pra justificar essas profecias não passa de uma fachada, uma casca fina que qualquer leigo pode quebrar com algumas perguntas triviais. Então fui forçado a voltar ao meu mundo simples e sem perguntas do ceticismo. Acho incrível como toda crença dessa natureza parece estar sempre associada à imprecisão, falta de clareza e ingenuidade.

Há muitos furos nessa história, mas não quero parecer me importar muito com o assunto, então vou me limitar apenas a 1 questão central.

Todo o apoio "científico" dado à essa história está baseado no fato de que em 2012 o planeta Terra, o Sol e o centro da Via Láctea (onde existe um enorme buraco negro) estarão alinhados pela primeira vez em 25 mil anos. O Sol estará ENTRE a Terra e o centro da galáxia, provocando uma espécie de eclipse - ou seja, o Sol estará "tapando" a visão da Terra do centro da galáxia, o que poderia provocar a inversão dos polos terrestres (o planeta daria uma cambalhota e pararia de cabeça pra baixo, matando todo mundo). Por que? Bom, aparentemente esse buraco negro exerce uma força magnética constante sobre a Terra (e tudo que há na galáxia), e quando o Sol entrar na frente, essa força será cortada subitamente, provocando um desequilíbrio no planeta. Isso é basicamente tudo de "científico" que foi dito a respeito de 2012... Agora vem a minha dúvida:

Na Via Láctea há pelo menos 200 BILHÕES de estrelas (o Sol sendo uma de porte pequeno, situada na borda da galáxia). O Sol pode até estar entrando na frente deste centro da galáxia pela primeira vez em 25 mil anos, mas quantos bilhões de estrelas e corpos celestes estão O TEMPO TODO tapando o centro da galáxia da Terra? Dá pra calcular? Queria ter uma analogia melhor, mas imagine o seguinte: a Avenida Paulista está vazia; você está numa ponta e um atirador está na outra. Ele atira, e você é atingido no peito. Até aí tudo bem. Mas imagine que entre você e o atirador, agora está toda a parada gay - 3 milhões de pessoas. Que diferença faria se uma drag queen anã passasse na sua frente na hora do tiro?

Quer dizer, será que ninguém pensou nisso? Claro que estamos falando de atração gravitacional e não de um objeto físico viajando pelo espaço, mas se essa força persistiu por 26.000 anos-luz, atravessando tudo o que havia no meio, não é o nosso solzinho que no fim vai interromper a viagem! Além disso, tal fenômeno de inversão dos polos nunca foi observado em outros planetas. Por que a coitada da Terra tem que ser a primeira a dar uma pirueta? Se alguém tiver uma resposta por favor poste aqui. E de preferência sóbrio, pois aprendi no documentário que os Maias, antes de tirarem suas conclusões a respeito dos astros, fumavam "plantas sagradas", para que assim pudessem atingir "estados superiores de consciência"...

INDICADO PARA: Quem estocou comida antes do bug do milênio.

2012: Science or Superstition? (EUA, 2008, Nimrod Erez)

NOTA: 3.0

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser um Milionário?

Pra mim o filme foi uma experiência decepcionante em muitos aspectos. Durante a sessão, fiquei o tempo todo tentando ser condescendente e aproveitar a história pela sua simplicidade. Afinal, o filme já é um dos mais premiados de todos os tempos e o grande favorito ao Oscar. Eu sempre adorei ver o Oscar, mas nesses últimos anos eu raramente concordei com o resultado. Pelo contrário, fiquei meio revoltado com as vitórias de “Crash” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”. Então eu queria de verdade que esse filme servisse como uma espécie de reconciliação com a Academia. Bem, não aconteceu. Eu simplesmente acho que o filme não é bom o bastante. Já entrei com certo receio pois desconfio um pouco de Danny Boyle. Pra mim seu melhor filme é “Extermínio”, um terror sobre zumbis em Londres. Em “Cova Rasa”, “Caiu do Céu” e “Sunshine – Alerta Solar” por exemplo, acho que ele demonstra uma considerável falta de maturidade, sensibilidade e bom gosto como artista (parece sempre mais preocupado com o estilo visual do que com qualquer outra coisa). É interessante como o fato de você conhecer ou não o autor pode influenciar sua opinião. Imagine que você conheça uma pessoa, e fique encantado com sua personalidade e senso de humor, mas logo depois a veja com um outro grupo de pessoas, repetindo os mesmos trejeitos e as mesmas piadas. Ela se torna automaticamente detestável, não se torna? Com um diretor acho que é igual. A edição rápida e as afetações de câmera deste filme podem parecer originais e modernas pra algumas pessoas, mas eu me lembrava inevitavelmente de “Caiu do Céu”, onde ele fazia a mesma coisa ainda mais fora de contexto. São pequenas pistas que somadas vão me dizendo que Danny Boyle é esse diretor cult, que se diverte fazendo cortes rápidos e enquadramentos tortos, mas que não tem tanta visão pra tratar das questões mais profundas da história.

Pegue a estrutura em flashback. As pessoas ficam admiradas com a originalidade de contar a história da vida dele pra explicar como ele sabia as perguntas do programa. É uma sinopse interessante pra se ler no jornal, mas ninguém percebe que isso mata completamente o suspense do filme. Todas as cenas do programa (exceto a última que é “surpresa”) se tornam redundantes, mas ainda assim são tratadas pelo diretor como se fossem pequenos clímax (o garoto sempre faz a mesma cara de admiração quando acerta; fica parado, com a boca aberta, espantado com a própria sorte – essa mesma cara ele usa pra demonstrar sua paixão pela mocinha do filme). Isso tudo são técnicas pra manipular a platéia – o que eu não tenho nada contra, exceto quando é mal feito. O filme quer que a gente simpatize pelos personagens. Como ele faz isso? Através de diálogos e desenvolvimento de personagem? Não, ele pega as criancinhas mais meigas da Índia e chama os bandidos pra arrancarem seus olhos. Ele quer criar um momento emocionante no reencontro do casal no final do filme. Como ele faz? Ocultando os sentimentos da garota, por exemplo, pra criar uma curiosidade na platéia até o final da história? Não, ele chama os bandidos de novo, que raptam a menina e rasgam sua cara com um canivete. O filme inteiro é explicito, na cara, grosseiro como uma novela da Globo. Não exige qualquer investimento ou inteligência da platéia. Se fosse uma aventura escapista sem pretensões, não me incomodaria nem um pouco. Mas se você quer que eu assista uma mãe ser assassinada na frente do filho, ou um garoto inocente ser eletrocutado apenas por ter acertado algumas perguntas na TV, então eu preciso de algumas justificativas.
Tenho várias coisas pra reclamar, como a fotografia que na maior parte é feia e óbvia, apenas bastante saturada e contrastada, algo que se faz na pós produção sem grande esforço (acho que as pessoas gostam do conteúdo da imagem e confundem isso com fotografia; olham aquelas indianas lavando roupa no rio e pensam “que fotografia bela”). Achei a vitória do menino fraca e pouco emocionante, afinal não havia nada em risco – a única coisa que ele queria era encontrar a menina, e ele já tinha feito isso. O dinheiro era secundário (há uma seqüência no filme “Terra dos Sonhos” onde um pai compete num parque de diversões pra ganhar um boneco pra filha que é 10 vezes mais eficiente que esse filme inteiro).

Ou seja, o filme é questionável em vários aspectos, mas ele atinge as pessoas com uma mensagem otimista, dizendo que se você for puro e honesto, mesmo que apanhe da vida no final será recompensado. Os fracos vencem. Acho isso tão duvidoso, ainda mais quando essa “vitória” está tão baseada em dinheiro e na sorte do menino ter pego as perguntas fáceis. Não foi cultura que o salvou, não foi educação. E os outros milhões de miseráveis na Índia que também são puros e honestos mas não tem a mesma sorte? Que mensagem eles poderiam tirar desse filme?

Slumdog Millionaire (RU, 2008, Danny Boyle)

NOTA: 6.5