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domingo, 29 de março de 2020

O Poço

(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão.)

ANOTAÇÕES:

- A ideia da prisão é curiosa, diferente, mas se a intenção do filme for fazer qualquer tipo de crítica social, é uma enorme besteira, afinal nada nessa prisão tem qualquer semelhança com o funcionamento de uma sociedade. É uma situação tão fora da realidade quanto a premissa de A Centopéia Humana (a diferença mais evidente entre a prisão e o mundo real, é obviamente o fato de que numa sociedade, comida e riquezas não são "propriedades coletivas" que caem do céu, numa quantia fixa, limitada, pra serem distribuídas aleatoriamente entre as pessoas - no mundo real, as pessoas precisam produzir, trabalhar, e consomem proporcionalmente ao que produzem e ao que têm de riquezas a oferecer; e a vida real não é um jogo de "soma zero", onde pra um ficar satisfeito, o outro precisa passar fome).

- Regras mal explicadas: não entendemos direito por que existe essa prisão, qual sua função, quem pode ir pra lá, etc.

- O fato do protagonista ter ido pra lá voluntariamente parece incompreensível e impede a gente de se identificar totalmente com ele, temer pelo que irá acontecer. Não é uma pessoa inocente colocada à força numa situação terrível, tipo Jogos Mortais, Distúrbio (2018), o que gera mais tensão.

- O filme é motivado por uma ideologia coletivista, tem uma visão malevolente de mundo baseada em escassez, em conflitos de classes, que prega altruísmo e auto-sacrifício individual em nome do "bem comum". Claro que pra isso ele precisa criar uma situação impossível, retratar o mundo como um grande bote salva vidas, e o ser humano como um animal selvagem, irracional, perverso, como acabam fazendo todos os filmes do gênero pra tentarem provar suas ideias (Ensaio Sobre a Cegueira, O Nevoeiro, O Expresso do Amanhã, Chappie, etc).

- É um filme mal intencionado - faz a gente acompanhar personagens decadentes, passando por situações desagradáveis do começo ao fim. Não há nenhuma emoção positiva no filme. Ninguém pra admirar, nada pra torcer ou desejar, nada de bonito pra ver. É apenas uma tentativa infantil de expor os males do "capitalismo".

- Não temos como saber se o plano dos 2 faz sentido. Se fazer a panacota chegar intacta ao primeiro andar realmente os libertaria. As regras foram mal explicadas, então não ficamos envolvidos pela ação, torcendo pra dar certo.

- SPOILER: Menos sentido ainda faz a ideia de mandar a garotinha de volta na plataforma, em vez da panacota. O que isso irá provar? O que de fato irá mudar na prisão? Serão todos soltos? Pela velocidade com que sobe a plataforma, dava a impressão que seria impossível uma pessoa sobreviver à subida. Mas se é possível, eles mesmos não poderiam fazer isso e matar todo mundo chegando lá em cima? E escapar? Essa teria sido a primeira ideia de todas se o filme fosse coerente (uma das vantagens de se fazer filmes "simbólicos", é que você não precisa escrever uma trama de fato inteligente).

- SPOILER: Claro que o filme acaba de maneira abrupta, sem explicar nada. Muito mais fácil deixar o filme aberto a interpretações, deixar o espectador imaginando que o diretor tem algo genial em mente, do que ter que mostrar isso no filme em si (leia: Simbolismo e Filmes Interpretativos).

El Hoyo / The Platform / Espanha / 2019 / Galder Gaztelu-Urrutia

NOTA: 2.0

sábado, 27 de abril de 2019

Vingadores: Ultimato


(Esta crítica está no formato de anotações - em vez de uma crítica convencional, os comentários a seguir foram baseados nas notas que fiz durante a sessão - um método que adotei para passar minhas impressões de forma mais objetiva.)

ANOTAÇÕES:

- Incrível como a Brie Larson está ótima aqui como a Capitã Marvel (foi uma das minhas coisas favoritas do filme todo), enquanto no filme solo ela me pareceu mal dirigida, como se fosse a atriz errada pro papel. Deram uma outra atitude pra ela que combinou muito mais com seu perfil natural, e isso tornou a personagem mais carismática.

- SPOILER: Surpreendente eles matarem o Thanos logo no comecinho do filme. Cria uma imprevisibilidade interessante.

- Tenho certos problemas com o elemento de viagem no tempo no filme. Primeiro porque dá um senso de que nada que acontece na história é definitivo e deve ser levado a sério, afinal tanto o vilão quanto os heróis poderão usar esse recurso pra desfazer qualquer evento do filme (tira o peso dramático das mortes). Depois porque o filme tem uma atitude extremamente não-científica com o assunto: parece muito vaga e fácil a maneira como eles conseguem viabilizar a viagem no tempo, e é tudo levado num tom de piada, o que tira a seriedade da história (os testes iniciais que dão errado e um deles vira um bebê, etc). As regras da viagem no tempo também são muito confusas e mal estabelecidas. Por exemplo: por que ao viajar no tempo eles também se deslocam no espaço e vão parar em lugares dramaticamente convenientes?

- O humor do filme é legal - em geral são comentários divertidos que não diminuem a estatura dos personagens, apenas os fazem parecer inteligentes e espirituosos (o comentário sobre receber e-mails de um guaxinim, por exemplo), diferente do humor destrutivo de outros filmes da Marvel (ok, o Thor gordo talvez tenha passado um pouco do ponto).

- SPOILER: Não fica claro por que eles precisam revisitar diversas cenas dos filmes anteriores pra encontrar as pedras. É uma ideia copiada de De Volta para o Futuro (alguns momentos parecem roubados diretamente do filme, como o Tony Stark encontrando o pai, e o pai achando ele familiar, etc). Só que aqui parece um movimento forçado do roteiro só pra criar essa interação nostálgica entre os personagens do passado e os do presente (ou seja, a única ideia mais marcante do roteiro acaba sendo uma ideia copiada de um filme extremamente conhecido, e usada de maneira menos eficiente, o que reforça o que discuto na postagem A Importância de Ideias e Inspiração).

- SPOILER: Chato auto-sacrifícios ainda serem necessários mesmo eles tendo o poder de viajar no tempo. Não é muito bem explicado por que a Scarlett Johansson não pode voltar depois.

- Também não fica claro por que a luva não funciona no Hulk (ou se funcionou, o que aconteceu). O filme é cheio de crises e obstáculos que não são muito justificados; surgem de qualquer jeito apenas porque a fórmula diz que coisas devem dar errado pra gerar conflito.

- SPOILER: Na minha sessão a plateia aplaudiu quando o Capitão América usou o martelo do Thor. Eu fiquei meio perdido, pois não entendi por que agora de uma hora pra outra ele adquiriu esse poder (ou resolveu mostrá-lo, caso já o tivesse antes). É o tipo de cena que talvez faça sentido pra fã, pra quem conhece bem o universo, mas que fica fora de contexto pro espectador normal, pois não foi construída nenhuma expectativa nesse filme em específico em relação a isso.

- SPOILER: A cena em que todos os Vingadores se reunem contra o Thanos pra mim também foi um pouco insatisfatória. Óbvio que isso eventualmente iria acontecer (já é uma ideia batida), mas não entendi direito como foi que eles conseguiram ressuscitar todo mundo finalmente. Foi quando o Hulk colocou a luva? Acho chato quando um momento crucial como esse deixa margem pra dúvidas. Não consigo curtir a cena plenamente se o filme não me convenceu primeiro de que aquilo faz sentido, não se trata apenas um fan-service jogado na trama.

- SPOILER: Como o Homem de Ferro conseguiu roubar as pedras do Thanos no último momento? Por que elas funcionaram na luva dele? É outra reviravolta mal explicada. Se o herói vai realizar o ato mais importante do filme, a jogada que irá salvar o mundo, você espera que isso seja algo claro, que você realmente consiga observar a ação dele, entender qual foi a sacada que resultou na vitória, e que também seja uma ideia interessante, inesperada  - não apenas o Homem de Ferro distrair o Thanos e tomar as pedras da mão dele como se fosse uma criança roubando balas da mão da outra.

- SPOILER: Chatíssimo esse clichê mais uma vez do auto-sacrifício no final (o Homem de Ferro ter que morrer pra salvar os outros). Sempre achei que esses filmes funcionam melhor pra quem tem uma mentalidade cristã. Eu por exemplo já não vejo nada de muito admirável nesses auto-sacrifícios gratuitos nos finais dos filmes. O fato de eu ter uma mentalidade mais "científica" também me faz questionar a coerência dos poderes dos personagens, querer entender direito as regras da magia, a lógica dos eventos - já os mais místicos costumam ser bem mais permissivos em relação a essas coisas mal explicadas: enxergam tudo de forma mais simbólica, abstrata, que funciona por uma lógica alternativa, afinal é assim que eles foram acostumados a digerir os textos religiosos.

- SPOILER: Péssimo esse final do Thor e do Capitão América abdicando de seus poderes, passando o bastão para as "minorias da América" (o momento politicamente correto do filme). É mais um reflexo dos valores altruístas / coletivistas por trás desses filmes - que na verdade parecem surgir pra contrabalancear o que veio antes - a culpa gerada pelo desejo por poder, ambição, etc. Me remete ao que discuti no texto Por que não gosto de Game of Thrones. Imagino que quem deseje poder, autoestima, sucesso, mas enxergue essas coisas como coisas destrutivas, ruins, imorais, acabe se sentindo culpado e vivendo essa dualidade - querer poder e tudo mais, mas ao mesmo tempo achar que o nobre e moral no fim é abrir mão dessas coisas - se sacrificar, ser humilde, altruísta, etc. Como eu não tenho essa visão, um final como esse pra mim é apenas tedioso. Mas pra quem aceita essa dualidade, talvez pareça um ato nobre dos heróis, e a pessoa se sinta mais ética saindo do cinema. Só como ilustração, observe como Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal faz o oposto disso na cena final, e brinca com esses valores de forma sutil e inteligente, fingindo por um momento que irá tombar pro lado do auto-sacrifício, da abdicação, só pra enganar a plateia (ou seja, o filme aqui pressupõe que o espectador rejeite esses valores altruístas, e irá vibrar quando Indiana tomar o "bastão" de volta, representado pelo chapéu - mas a verdade é que muito do público atual aceita sim esses valores, admira o auto-sacrifício, rejeita expressões de autoestima, individualismo, e provavelmente não irá se deleitar como eu nessa cena, o que mostra como nossos valores morais influenciam diretamente na maneira como reagimos aos filmes).

Avengers: Endgame / EUA / 2019 / Anthony Russo, Joe Russo

NOTA: 5.5

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Bom Gigante Amigo

Tinha um mau pressentimento a respeito desse filme desde que Spielberg o anunciou. Por algum motivo, a história de uma amizade entre uma garotinha inglesa e um gigante idoso não me parecia muito empolgante. Resolvi assistir à animação de 1989 pra ver do que se tratava, e continuei achando que o material era fraco e que não renderia um bom filme. Ainda assim, minha confiança no Spielberg é tanta que eu estava pondo fé que ele acharia uma forma de modificar o material original e transformá-lo num grande entretenimento (ainda mais o roteiro sendo da Melissa Mathison, que apesar de não ter uma carreira muito extensa, escreveu E.T. - O Extra-Terrestre que eu considero um dos melhores filmes já feitos). Infelizmente isso não aconteceu. Spielberg parece ter confiado cegamente que o livro de Roald Dahl era um clássico, e se propôs apenas a transpor a história para as telas, emprestando seu talento apenas como narrador visual (não li o livro, mas pela semelhança do filme com o desenho de 89, suponho que ele seja uma adaptação fiel).

NOTAS DA SESSÃO:

- A fotografia, os cenários / direção de arte são lindíssimos.

- O começo da história é ruim. Mal somos apresentados à personagem e ela já é raptada por um gigante. Como assim? Por que gigantes caminham por Londres à noite e ninguém os vê? Não sabemos quem é essa menina, o que ela busca, o que o fato dela ser raptada muda na vida dela. Não existe nem o simples desejo de voltar pra casa (como Alice ou Dorothy), afinal ela vivia num orfanato e não tinha ninguém em sua vida. E ela gosta do gigante. Sem falar que é aquilo que eu chamo de "fantasia dentro da fantasia". Antes de aparecer o gigante, esse universo de Londres já parecia um lugar fantasioso. Não há um contraste interessante com a realidade. Spielberg raramente comete esse erro. Ele costumava dizer que não fazia filmes de fantasia como Star Wars, etc, porque gostava de trazer o fantástico pro mundo familiar do espectador (E.T. aparece numa típica casa americana, etc).

- A reação da Sophie ao gigante é meio falsa. Em vez de estar apavorada, ela já fala com ele de forma confiante, o desafia, etc. Não dá pra acreditar no que está acontecendo. Ele não é uma figura muito atraente, e a amizade entre os dois não empolga. Até porque o personagem da menina é muito raso. Em E.T., por exemplo, o Elliott era visto como loser, imaturo, não era aceito no grupo do seu irmão... E o E.T. vem pra dar a ele independência, poder e maturidade. Em vez de filho, ele passa a ter um papel de protetor, e ao longo da aventura prova seu valor e sua coragem. Não há nada parecido aqui. Não temos uma conexão emocional com a história.

- A ideia de transformar flatulências em uma coisa mágica e divertida simplesmente não dá!

- Talvez o Spielberg tenha se identificado com essa ideia do BFG ser uma criatura benevolente que traz sonhos pra vida das pessoas - algo que ele sempre fez com seus filmes. É uma metáfora bonita, mas que não está embutida em uma boa história.

- Faltam conflitos, antagonistas... Esses gigantes "do mal" não são nada ameaçadores. E não faz sentido eles se mobilizarem todos pra encontrarem 1 garotinha. O que eles vão fazer com ela, comê-la? A Sophie não serviria nem como um lanche da tarde pra 1 deles. Por que eles dão tanta bola pra ela? No fim da sequência em que eles invadem a casa do BFG, o BFG consegue espantá-los facilmente com um balde d'água. Ou seja, não são obstáculos sérios que precisam ser superados. O BFG não pode simplesmente se mudar pra outro lugar e deixar os "bullies" de lado?

- Essa mudança no ato final da história me parece estranha (no desenho já achei isso). O filme todo é uma fantasia na terra dos gigantes que foca apenas na garotinha e no BFG. Depois de uma hora e tanto de filme, de repente somos jogados no Palácio de Buckingham e estamos com a rainha da Elizabeth discutindo estratégias militares pra derrotar os gigantes?! Isso não parece fazer parte do mesmo filme. E qual a necessidade deles criarem esse sonho pra rainha antes de aparecerem? Se ela visse o gigante e a Sophie sem ter sonhado com eles antes, ela não iria acreditar no que estava vendo?! Não é uma história inteligente.

- O capricho técnico do Spielberg acaba irritando numa história tão sem vida e sem emoção como essa. Incomoda ver ele se divertindo criando planos bem coreografados, cuidando obsessivamente do visual a ponto de deixar tudo plastificado - quando algo tão mais importante está sendo ignorado (a alma do filme).

- Se o Spielberg se identifica com o papel do BFG de implantar sonhos na cabeça das pessoas, o que esse trecho da rainha significa, simbolicamente? Que as decisões políticas de um país também estão à mercê dos "sonhos" dos governantes? E que quem cria e controla esses sonhos (o artista) no fim é quem governa o mundo? Dá pra viajar um pouco nessas teorias.

- A sequência final da captura dos gigantes não interessa porque é muito falsa fisicamente (esses helicópteros não conseguiriam derrubar gigantes desse tamanho). E também pelo fato dos vilões serem fracos e não representarem uma grande ameaça no contexto da história.

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CONCLUSÃO: Tecnicamente bem feito, mas a história é fraca e sem vida.

The BFG / Reino Unido, Canadá, EUA / 2016 / Steven Spielberg

FILMES PARECIDOS: Jack, o Caçador de Gigantes / As Aventuras de Tintim / A Invenção de Hugo Cabret / Os Fantasmas de Scrooge / O Expresso Polar

NOTA: 6.0

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Mãe Só Há Uma

NOTAS DA SESSÃO:

- Naturalismo: o filme registra tudo de maneira crua, externa, tem uma fotografia sem tratamento - espera que o espectador vá tirando suas próprias conclusões a respeito da "realidade" que está vendo.

- Eventos essenciais da história não são mostrados (a mãe vai presa sem que tenha havido uma conversa entre ela e o filho sobre a situação toda).

- Naturalismo: o protagonista não tem um desejo. As coisas vão acontecendo a ele (ele é forçado a mudar de família), mas não sabemos o que ele busca internamente. Se o filme fosse sobre ele lutando pra fugir de casa ou restaurar sua antiga família, aí pelo menos a história teria uma "espinha".

- Outra cena essencial que não é mostrada: o encontro entre o Pierre e a nova família. O filme já corta pra uma cena onde todos estão no restaurante, fica mostrando a conversa do irmão mais novo no celular que não tem nenhuma relação com nada. A única função disso é mostrar pra plateia que o filme não tem uma estrutura lógica, portanto, é "de arte".

- Os personagens se comportam de maneira artificial. Tudo parece aleatório, incoerente: o irmão mais novo acabou de conhecer o Pierre e já fala com ele de forma íntima, entra no banheiro atrás dele no restaurante... Depois tem a cena do ensaio da banda onde o cara beija o Pierre do nada... Ou depois quando os pais biológicos da irmã chegam e tratam ela como se fosse um cachorro... As pessoas só se comportam assim em filmes de estudante.

- Quando vai pra nova casa, o filme começa a ridicularizar a "burguesia" e se torna uma declaração de ódio contra os mais ricos, assim como Que Horas Ela Volta? (o quadro patético com o retrato da mãe na parede, etc).

- Cena em que o Pierre quebra pratos na parede: a ideia é mostrar que ele está à beira de um ataque, chegando no limite, só que isso contradiz toda a caracterização dele até aí. É uma atitude que vem do nada, sem o menor preparo. A construção dos personagens é muito pobre. O filme não demonstra uma noção realista da natureza humana. Outra cena: a mãe biológica tentando criar intimidade com o filho e insistindo pra entrar no quarto dele, quando ele obviamente quer ficar sozinho. É muito sem noção a atitude dela. E não chega a ser algo obviamente forçado, tipo coisas do Lars von Trier, que vão mais pra um lado de surrealismo. Fica parecendo algo mal atuado.

- Esse personagem da mãe é odioso, assim como a patroa em Que Horas Ela Volta? A motivação do filme é expressar ódio e atacar a classe de pessoas que a cineasta detesta (os "coxinhas" que gostam de usar camisa polo, etc). A cena no provador onde o Pierre sai vestido de mulher é ridícula. Uma atitude que não tem nada a ver com o personagem. Ele não era um garoto transgressor e irreverente nem na própria casa, até parece que com estranhos agiria assim. E depois de todo esse escândalo, o filme mostra eles assistindo TV em casa como se nada tivesse acontecido (e o Pierre ainda de vestido). Pra um filme Naturalista não há nada de natural no comportamento das pessoas. O filme é apenas uma desculpa pra cineasta passar suas opiniões políticas.

- A cena da paquera no colégio (onde o irmão mais novo é rejeitado pela garota bonita) não tem nada a ver com o resto da história. Parece um sketch enfiado de qualquer jeito no meio do filme pra condenar um outro grupo de pessoas que a cineasta detesta: os "opressores" que levam em conta a beleza dos outros na hora do flerte.

- Ridículo o Pierre ir jogar boliche de vestido. Não tem nada a ver com ele essa atitude, e mesmo que tivesse, uma família conservadora como essa não estaria aí tentando se divertir em público. Eles nem teriam saído de casa se o Pierre quisesse ir desse jeito. Os personagens são tão falsos que o filme conseguiu deixar até o Matheus Nachtergaele ruim.

- Irritante o filme expressar afeto pelo personagem do irmão mais novo (ele encostando a cabeça no ombro do Pierre no final). É igual em Que Horas Ela Volta? (e em Casa Grande) que por um lado quer vilanizar a burguesia, mas por outro mostra o filho da patroa de forma carinhosa, como alguém que respeita os não-privilegiados. Seria isso uma tentativa furada de não parecer generalista e preconceituoso? Ou um desejo inconsciente de ser aceito pelos "inimigos"?

Brasil / 2016 / Anna Muylaert

FILMES PARECIDOS: Que Horas Ela Volta? / Casa Grande / O Som ao Redor

NOTA: 1.5

domingo, 25 de março de 2012

Jogos Vorazes


Semanas antes de estrear surgiu um enorme frisson ao redor desse filme entre o público adolescente e ficou claro que a série se tornaria o próximo fenômeno mundial na linha de Crepúsculo, Harry Potter, etc. O filme é a adaptação do primeiro de 3 livros escritos por Suzanne Collins (ela própria escreveu o roteiro do filme - a primeira decisão inteligente da produção). A história se passa num futuro pós-apocalíptico onde uma nação chamada Panem, dividida em 12 distritos, promove um evento televisivo anual chamado Jogos Vorazes, onde um casal de cada distrito (24 pessoas ao todo) é sorteado pra lutar pela sobrevivência na selva até que apenas 1 pessoa sobreviva (há uma certa crítica ao estatismo e à mídia no meio disso tudo, mas o filme evita assuntos polêmicos e foca mais na ação e no drama dos personagens). O diretor é o competente Gary Ross, o mesmo de Pleasantville e Seabiscuit.

O filme é um acerto, começando pelo casting do casal - a estratégia parece ter sido escolher bons atores em primeiro lugar, e não modelos que consigam interpretar. Jennifer Lawrence continua com a força que mostrou em Inverno da Alma, e o garoto Josh Hutcherson sempre foi talentoso e só precisava de um hit como esse pra virar astro. O roteiro também é muito bom - personagens gostáveis, conflitos bem estabelecidos, temas universais, história clara e estruturada (achei ótimo que os jogos só começam depois de 1 hora de filme). E há momentos interessantes, ideias criativas como a de transmitir mensagens através de tordos (pássaros capazes de imitar melodias). São detalhes como esse que elevam um filme de um passatempo pra um entretenimento de verdade.

Acabei de ler que o filme faturou chocantes US$155 milhões no primeiro fim de semana, se tornando a 3ª melhor estreia da história, atrás apenas de Batman - O Cavaleiro das Trevas e o último Harry Potter (um feito ainda mais impressionante, afinal não se trata de uma sequência nem de uma estreia de verão). Não é desmerecido.

The Hunger Games (EUA / 2012 / 142 min / Gary Ross)

INDICAÇÃO: Quem gostou das séries Crepúsculo, Harry Potter (embora como filme esse provavelmente seja melhor que todos dessas sagas), Planeta dos Macacos - A Origem, Avatar, Gladiador, etc.

NOTA: 8.0

terça-feira, 9 de março de 2010

Orações para Bobby


Baseado numa história real, esse tearjerker (termo americano pra filmes que tentam fazer você chorar a qualquer custo) produzido para a TV, conta a história de um garoto gay no começo dos anos 80 que acaba se suicidando por causa da rejeição da família - principalmente da mãe que é extremamente religiosa e faz de tudo pra tentar "curá-lo" (o suicídio já é sugerido na primeira cena, então não estou estragando nenhuma surpresa). Não é nenhum Grey Gardens, que apesar de produzido pra TV tem qualidade de cinema. Esse é um típico telefilme, dirigido de maneira meio desajeitada, sem muito senso estético - apenas conta a história de uma maneira literal, assim como as novelas.

Todo o propósito do filme me parece uma fantasia vingativa meio infantil... Algo feito pra esfregar na cara dos parentes. Me lembrei da cena de Uma História de Natal, onde após uma briga com os pais, o garotinho se imagina voltando cego para casa pra fazer com que eles se sintam mal (é imperdível, assistam o trecho aqui!). Mas há algo de muito honesto e visceral nessa história, tornando ela difícil de resistir. O filme foi indicado aos Emmys de Melhor Filme e Melhor Atriz para Sigourney Weaver (que faz a mãe). Frequentemente cito Sigourney como minha atriz favorita, e este filme só me fez amá-la ainda mais. É uma das melhores performances do ano, e por causa dela o filme ganha vida.

Prayers for Bobby (EUA, 2009, Russell Mulcahy)

INDICADO PARA: Quem gostou de Milk - A Voz da Igualdade ou C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor.

NOTA: 7.0

sábado, 6 de março de 2010

Direito de Amar


Estréia na direção do estilista Tom Ford, Direito de Amar (financiado por ele próprio) é sem dúvida um dos filmes de maior bom gosto estético que eu já vi. É tudo tão chique que é a primeira vez que eu vejo um ator sentado numa privada ainda parecer elegante. Tudo é um prazer estético, desde a fotografia granulada, até os figurinos hiper bem cortados, a música, as sardas de Julianne Moore, a simplicidade da fonte nos créditos iniciais (a única coisa de mau gosto mesmo no filme é o título em português).

E também é a primeira vez em muito tempo que eu vejo uma novidade técnica; uma ferramenta incrível de direção que nunca tinha me passado pela cabeça. Tom Ford usa cor assim como outros diretores usam música ou tamanho de enquadramento. Não como algo estático e fixo durante o filme todo, mas como algo que deve ser aumentado ou diminuido conforme a necessidade de cada cena, acentuando os momentos desejados. Filmes como Deserto Vermelho ou Reds já usaram cor pra transmitir idéias e sentimentos, mas aqui isso é usado de uma forma diferente: numa mesma tomada, nós vemos a saturação da imagem flutuar pra cima e pra baixo, esquentando e esfriando a cena de acordo com o sentimento do personagem, como nuvens passando em frente ao Sol. E o mais impressionante é que o efeito disso não é apenas intelectual, a entrada da cor realmente intensifica a emoção das cenas!

O drama gira em torno de um professor universitário gay, em 1962, que perde o namorado num acidente de carro logo no começo do filme e passa a viver sozinho. Ou seja, não é um filme para as grandes massas. Além da temática gls, o filme é sobre idade, morte, solidão, nada pra ir curtir no Domingo com a família. Mas não é um filme depressivo; as imagens e as performances de Colin Firth e Moore fazem dele um prazer que supera a seriedade do tema.

E pasmem, o rapaz da foto acima é Nicholas Hoult, o nerdzinho de Um Grande Garoto:

Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Colin Firth).

A Single Man (EUA, 2009, Tom Ford)

INDICADO PARA: É um filme difícil de classificar, mas acho que é pra quem gosta de filmes maduros e visuais, como Longe do Paraíso ou mesmo o Beleza Americana (esquecendo o lado teen).

NOTA: 8.0

terça-feira, 2 de março de 2010

A Fita Branca


Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2009, A Fita Branca é o novo filme do provocador cineasta alemão Michael Haneke (Caché, Violência Gratuita). Contada em preto e branco, a história se passa num vilarejo alemão poucos meses antes do início da Primeira Guerra Mundial, onde misteriosos atos de violência começam a ocorrer levantando suspeitas sobre os moradores da vila - especialmente sobre as crianças.

Sutil e com ritmo bem lento (e 2 horas e 25 minutos de duração), o filme é um comentário sobre o autoritarismo, a violência e a opressão. O conceito de Haneke é que essas crianças, acostumadas com a punição e à obediência cega dentro de suas próprias casas, são a semente do nazismo. Pra mim, isso soa como uma explicação barata e meio infantil. Uma afirmação grande, mas bobinha demais pra servir de base pra um filme tão bonito e ambicioso. É como aquele filme do Oliver Stone sobre George W. Bush, que dava a entender que todos os erros do presidente eram consequência da falta de amor do pai. Sei, sei.

A impressão que eu tive é que Haneke queria fazer o seu Dogville. Ele e Lars von Trier têm carreiras parecidas... Eles fazem parte de um mesmo universo filosófico, olham o mundo através da mesma lente - uma lente escura que quer revelar o caos e a crueldade humana. Só que eu acho Trier mais talentoso, mais profundo e mais divertido. Seus filmes são intensos, estimulantes. De qualquer forma, é um filme sobre ideias interessantes, é bem dirigido, e é visualmente impecável.

Indicado a 2 Oscars: Melhor Filme Estrangeiro (Alemanha) e Melhor Fotografia.

Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte (AUS/ALE/FRA/ITA, 2009, Michael Haneke)

NOTA: 6.5

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Um Olhar do Paraíso

Combinação ousada de suspense com fantasia "post mortem", onde uma garota de 14 anos é brutalmente assassinada por um serial killer e permanece numa espécie de limbo enquanto sua família se recupera de sua morte e dá início a uma investigação. Dirigido por Peter Jackson (O Senhor dos Anéis) e estrelado por Saoirse Ronan (a menininha de Desejo e Reparação), Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Susan Sarandon e Stanley Tucci. Foi baseado num livro de sucesso de 2002.

O filme começa muito bem, mas após a morte da menina o roteiro vai enfraquecendo e perde o rumo. Não vira um suspense de investigação, não vira um drama sobre a perda, não vira uma fantasia do tipo Amor Além da Vida. E tudo isso misturado de uma maneira bagunçada. Em Ghost, depois que Patrick Swayze morre, a história continua - aparece a médium, Sam é treinado por um outro fantasma pra aprender a se comunicar com os vivos, depois ele tem que salvar a namorada, etc. Essa narrativa não existe aqui, a platéia fica meio que num limbo junto com a garota.

Apesar disso tudo achei o filme fascinante e não vi o tempo passar. Jackson tem uma habilidade rara de criar atmosfera. Ele dirige de um jeito que te suga pra tela e faz você viver cada momento, cada detalhe (repare na cena em que a irmã de Susie recoloca a tábua solta no piso do quarto do assassino - é esse tipo de exagero de direção que faz uma cena ganhar vida). Sempre meço um filme por seus picos. Tem muitos filmes com menos falhas que este, mas que não conseguem criar um único momento de magia. Este, se torna memorável por estes momentos, como por exemplo a cena do colégio onde Salmon tem seu quase primeiro beijo, que poderia ter sido uma cena esquecível e clichê se dirigida de forma mais realista, mas por conta dos toques de Jackson, se torna um momento dramático que faz o espectador sentir como deve ter sido a experiência subjetiva da garota.

Indicado a 1 Oscar: Melhor Ator Coadjuvante (Stanley Tucci)

The Lovely Bones (EUA/ING/NZ, 2009, Peter Jackson)

INDICADO PARA: Quem gostou de Amor Além da Vida, filmes do Shyamalan.

NOTA: 7.0

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Educação


Este é o filme inglês do ano. Baseado nas memórias da jornalista Lynn Barber, o drama se passa em Londres no início dos anos 60 e conta a história de uma garota de 16 anos que precisa escolher entre ir para Oxford ou abandonar os estudos para se casar com um playboy sedutor de trinta e poucos anos que aparece em seu caminho oferecendo uma vida de viagens, champagne e glamour. O centro do filme é a atriz Carey Mulligan, que dá uma performance impressionante em seu primeiro papel de destaque no cinema. Ela está indicada ao Oscar de melhor atriz, e já tem gente a comparando com Audrey Hepburn.

Difícil dizer por que gostei do filme. É uma história com um apelo universal, os atores estão todos perfeitos, a direção é precisa (feita pela dinamarquesa Lone Scherfig, de Italiano para Principiantes), o roteiro é vivo, envolvente, bem humorado (do famoso Nick Hornby, de Alta Fidelidade). Logo nos créditos iniciais sente-se que é um filme especial, com um nível de inteligência acima da média. Não é que a história é super original, ou que há cenas fantásticas, grandes emoções... O filme é rico em seus detalhes. Cada cena é interessante, você quer ouvir cada fala de cada personagens, quer saber o que vai acontecer em seguida. Acho que esse texto da autora do livro define bem o tom do filme:

"O que eu ganhei com Simon? Uma educação - aquilo que meus pais sempre quiseram para mim... Eu aprendi sobre restaurantes caros, hotéis de luxo, viagens para o exterior, aprendi sobre antiguidades, filmes do Bergman e música clássica. Mas no fundo eu ganhei um prêmio bem maior que este. Minha experiência com Simon curou completamente minha ânsia por sofisticação. Quando cheguei em Oxford, eu não queria nada além de conhecer garotos gentis, decentes e corretos da minha própria idade, sem me importar se eles eram desajeitados ou virgens. Eu iria me casar com um deles eventualmente e permanecer casada por toda a minha vida e por isso, eu suponho, eu tenho que agradecer ao Simon."

Indicado a 3 Oscars: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan) e Melhor Roteiro Adaptado.

An Education (ING/FRA, 2009, Lone Scherfig)

INDICADO PARA: Quem gostou de Notas Sobre um Escândalo, A Lula e a Baleia, Beleza Americana, etc. AMIGOS: Diego E, Givago, Leslie, Wellington, Manoela A, Márcio B, Márcio L, Mariana M, Marlene, Oghan, Rafa V, Viviane S.

NOTA: 7.5

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Idas e Vindas do Amor


Um filme tão desesperado em agradar a todos que acaba se tornando meio repulsivo. Ele tem no mínimo 20 estrelas no elenco, a cantora teen do momento, o astro teen do momento, os personagens usam o sapato do momento, falam no telefone do momento - e assim que acabar este momento, o filme estará morto. E na tentativa de ser democrático, o filme se torna desonesto, sem personalidade, algo extremamente planejado e artificial. Temos uma branca que se apaixona por um negro, um casal gay atraente, referências à cultura indiana... Imagino os produtores fazendo uma lista de assuntos pop que não podem ficar de fora.

O que mantém o pique do filme mesmo são os astros na tela (como Anne Hathaway é boa!), mas o roteiro é fraco e os diálogos são comuns. O filme conta a história de vários casais que passam por momentos decisivos no dia dos namorados. São várias historinhas que se cruzam, mas fiquei com a sensação de que nenhuma delas era particularmente especial. 10 histórias mais ou menos boas não se transformam num filme excelente, e sim num filme mais ou menos bom. Serve como um bom passatempo, mas não espere se envolver ou ter insights interessantes como em Ele Não Está Tão a Fim de Você.

Do mesmo diretor de Uma Linda Mulher. Mas se o poster fosse realmente honesto, ele diria "Do mesmo diretor de Noiva em Fuga".

Valentine's Day (EUA, 2010, Garry Marshall)

INDICADO PARA: Quem gostou de Simplesmente Amor, embora este seja um pouco mais fraco. AMIGOS: Carolina K, Felipe E, Henry, Kenzo, Oghan.

NOTA: 5.0

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Premonição 4


Não é tanto um quarto capítulo da série Premonição como uma quarta versão dessa trama que é sempre a mesma - adolescentes escapam de um acidente graças a uma premonição, mas depois são perseguidos pela "morte" um a um. Como os personagens são sempre novos, a série pode continuar pra sempre, basta os roteiristas continuarem bolando boas cenas de morte.

Geralmente, o melhor momento dos "Premonições" é a primeira tragédia que abre o filme. Aqui ela se passa numa corrida de carros, mas não chega a ser tão boa quanto a da rodovia de Premonição 2, por exemplo. A cena mais interessante do 4º se passa numa sala de cinema, que logicamente exibe um filme em 3D!

O maior "problema" da série acho que ainda é a falta de um vilão. A "morte" é só um conceito; e ninguém consegue ter medo de um conceito (é o mesmo problema de Fim dos Tempos, embora sejam filmes bem diferentes). Mas acho difícil falar mal de um filme de terror 3D com 80 minutos de duração. É tudo tão honesto... Premonição ainda tem uma vantagem, que é a de saber exatamente o que é e não se levar a sério. Se você estiver adaptando Dostoiévski para o cinema, muitas coisas podem dar errado. Mas se você vai ao cinema ver um slasher de 80 minutos em 3D, do que você pode reclamar? Tudo é lucro. Eu me diverti.

The Final Destination (EUA, 2009, David R. Ellis)

INDICADO PARA: Adolescentes, frequentadores de shopping.

NOTA: 5.5

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Fim da Escuridão


Thriller dirigido por Matin Campbell (Cassino Royale) sobre um policial que investiga a morte de sua filha, baleada numa emboscada aparentemente armada contra ele. O filme marca a volta de Mel Gibson às telas - apesar dele ter dirigido e produzido A Paixão de Cristo e Apocalypto, Gibson não protagonizava um filme desde Sinais, de 2002.

O filme é extremamente tradicional, mas sem parecer datado ou previsível. A maioria dos filmes comerciais está sempre tentando te roubar a atenção de uma forma barata. Escalam atores bonitos, mesmo que eles não sejam os melhores pro papel. Seguem tendências de todo tipo, como essa moda de fotografar tudo com câmera na mão... Elevam a violência a níveis grotescos, inserem músicas populares mas inapropriadas na trilha sonora... Precisam sempre estar "inovando" de alguma forma. Me dá sempre uma sensação de conforto ver um filme como este, que captura completamente a atenção do espectador apenas com os elementos fundamentais da narrativa, sem precisar apelar pra outras coisas. Pode não ser o filme do ano, mas é um filme sólido e que simplesmente funciona. Gostei também de Mel Gibson. Acho incrível como ele consegue preservar uma certa vulnerabilidade ao interpretar, mesmo após décadas de estrelato (outros como Bruce Willis, George Clooney e Tom Hanks já estão com aquela expressão dura dos canastrões).

Baseado numa premiada mini-série britânica de 1985.

Edge of Darkness (RU/EUA, 2010, Martin Campbell)

INDICADO PARA: Quem gostou de Busca Implacável com Liam Neeson. AMIGOS: Carolina K, Felipe E, Mariana M, Mázio, Oghan, Rafa V, Wellington.

NOTA: 7.0

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Nine


Adaptação para o cinema do musical da Broadway de mesmo título, que por sua vez foi inspirado pelo filme 8 1/2 de Federico Fellini - que não era musical. O título do filme de Fellini nada tinha a ver com a história. Ele se chamava 8 1/2 pois era o oitavo filme e meio de Fellini (!). Até então ele havia dirigido sozinho 6 longas, co-dirigido outro (1/2), e dirigido 2 curta-metragens (que na cabeça do diretor equivalia a 1 longa), somando 7 1/2 no total. Não espere muito mais sentido no título do musical.

O filme tem um elenco absurdo (Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Nicole Kidman, Judi Dench, Kate Hudson, Sophia Loren e Fergie), é dirigido pelo caprichoso Rob Marshall (de Chicago e Memórias de uma Gueixa), e foi indicado a 5 Globos de Ouro incluindo o de Melhor Filme.

No entanto, foi um fracasso de crítica e de bilheteria. Não é o novo Chicago. Pra começar, a história é meio abstrata e pesada demais. Gira em torno de um cineasta em crise - não só no trabalho como em sua vida pessoal. Acho que fica difícil achar um momento apropriado pra explodir numa canção dentro de uma história como essa. Gene Kelly falava que a melhor justificativa pra se entrar numa canção é a simples expressão de alegria e paixão pela vida. Não existe muito disso aqui. Outra coisa que irrita é que a gente tem que aceitar que todas as mulheres amam Guido Contini, que Guido Contini é um gênio, que Guido Contini é tudo, mas o filme apenas nos diz isso, não mostra, não justifica. Julgando apenas pelas atitudes que eu vi no filme, Guido Contini é um homem confuso, triste, infiel, arrogante, e não o deus que tentam nos vender. Nine daria um bom drama, mas não é exatamente material pra Broadway.

Outro problema fatal: canções fracas. Apenas "Be Italian" se destaca. E a música nova "Cinema Italiano" talvez. Algumas chegam a ser constrangedoras, e isso mata qualquer musical. Num musical, é preferível ter canções excelentes e um roteiro medíocre do que o contrário.

Só com isso, já entendo por que o filme não decolou. Apesar do show de fotografia e direção de arte, fica uma sensação de vazio, de que o filme não aconteceu, de que é desnecessário.

Ainda assim, é agradável por causa do visual e dos famosos. Mas são méritos mais superficiais. Se você tiver 8 astros na tela, até propaganda eleitoral deve ficar relativamente interessante.

Nine (EUA/ITA, 2009, Rob Marshall)

INDICADO PARA: Fãs de Broadway e de produções luxuosas.

NOTA: 6.0

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Humpday


Comédia independente sobre 2 velhos amigos heterossexuais que decidem produzir um vídeo pra um festival de filmes pornôs de arte - o detalhe é que os protagonistas seriam eles próprios! Disso surgem várias complicações; uma delas é que um deles é casado - imagine qual seria a melhor forma de contar à sua esposa que pretende fazer sexo com outro homem em frente às câmeras. E que não é por dinheiro! A idéia pode parecer meio improvável, mas a história se desenrola de maneira bem convincente.

O legal do filme é que, além de ele te fazer pensar sobre coisas estranhas, os atores estão incrivelmente naturais e trazem um realismo pra tela que raramente se vê. Existe uma química natural entre eles e muitos dos diálogos são improvisados, dando a impressão de que todos devem ser ótimos amigos nos bastidores.

É um filme pequeno, com senso de humor, atores carismáticos e um bom conflito. Pagando Bem, Que Mal Tem? tinha uma história parecida, mas enquanto ele apostava mais nas risadas e no choque, este aqui vai mais pra sensibilidade e reflexão.

Humpday (EUA, 2009, Lynn Shelton)

INDICADO PARA: Mulheres e gays.

NOTA: 7.0

sábado, 5 de dezembro de 2009

Abraços Partidos


Abraços Partidos é um melodrama com elementos de film noir e suspense (uma das sub-tramas envolve um garoto com uma câmera que de cara nos remete a Peeping Tom (1960), que inclusive é citado no filme). Mas um filme de Almodóvar não tem gênero, assim como um filme de David Lynch ou de Fellini não tem gênero. É um universo próprio; como sempre, vão ter prostitutas, traições, drogas, acidentes trágicos, personagens gays, pessoas obsessivas e vermelho - muito vermelho!

Esta história em particular se passa em torno de uma problemática produção cinematográfica. Acho interessante que muitos diretores que também escrevem roteiros acabam criando histórias que se passam no mundo do cinema, ou então personagens que sejam escritores, atores, etc. Nada mais natural - Almodóvar faz filmes há mais de 30 anos e este é certamente o assunto que mais domina.

Penélope Cruz está muito bem, como sempre que trabalha com ele. Mas a maior performance do filme acho que é a do próprio Almodóvar por trás das câmeras. Ele é um desses diretores exibidos que estão sempre chamando a atenção do público pro aspecto da direção - mas ele faz isso com estilo e sempre nos momentos certos. Há uma demonstração brilhante numa sequência onde o cineasta dentro do filme assiste a uma montagem ruim do longa que está produzindo; apenas um grande diretor como Almodóvar poderia mostrar a mesma cena 2 vezes; uma mal dirigida e a outra bem dirigida!

Abraços Partidos talvez não seja tão brilhante quanto Volver, seu último trabalho, mas ainda assim é um filme pra todo mundo ver. Tem alguns cineastas que são simplesmente incapazes de serem desinteressantes.

Los Abrazos Rotos (ESP, 2009, Pedro Almodóvar)

INDICADO PARA: Todo o público adulto.

NOTA: 7.5

domingo, 22 de novembro de 2009

Do Começo ao Fim


Pra quem não conhece, esse é o polêmico filme sobre os irmãos gays que vivem uma relação incestuosa. Desde que o trailer caiu na internet, virou a promessa de um Brokeback Mountain brasileiro; um filme que iria quebrar tabus e transformar o cinema nacional.

Mas acabou sendo uma das experiências mais dolorosas e constrangedoras que eu já passei numa sala de cinema. Não me lembro de um caso mais extremo onde um trailer tão forte resultou numa coisa tão horrorosa. Até me cansa pensar sobre o filme, porque tem tanta coisa errada nele que pra dizer como ele poderia ter funcionado seria preciso escrever uma teoria completa do cinema.

O filme tem 2 problemas principais: roteiro e direção. Mas isso, pra citar um amigo meu, é como chegar pra alguém e dizer "só mudaria 2 coisas em você: sua personalidade e sua aparência"! Tudo na tela está errado, principalmente o elenco. Os atores talvez não sejam tão péssimos como estão aqui, mas se o texto é forçado, se os enquadramentos estão errados, se a luz e a trilha sonora vão contra a cena, o que os coitados podem fazer?

E o problema não é só o que está na tela, mas principalmente o que não está. Cadê a história? Cadê os conflitos? Cadê a parte onde os dois começam a desenvolver a sexualidade? Cadê a reação dos pais quando pegam os filhos juntos pela primeira vez? Cadê os amigos e conhecidos da família - e o que eles acham disso tudo? A mãe, que serviria como o centro emocional da história, é eliminada logo no primeiro ato. Nunca vi um filme que fugisse tão furiosamente do próprio assunto que escolheu tratar. E o impensável - não há nenhuma cena de sexo! É um roteiro acéfalo, subdesenvolvido, medroso. Um fracasso tão completo que provavelmente não irá agradar nem ao público gay que já estava completamente vendido. O filme vai realmente do começo ao fim, sem em nenhum momento passar pelo meio.

Do Começo ao Fim (BRA, 2009, Aluízio Abranches)

INDICADO PARA: Fujam deste filme e não comentem com ninguém.

NOTA: 2.5

sábado, 21 de novembro de 2009

Lua Nova


Acho que a maior força deste filme é também seu maior problema - Taylor Lautner (o lobisomem que briga pelo amor de Bella) é muito mais interessante que o vampiro Robert Pattinson! Não só por ele ser mais atraente (e isso não sou eu que estou falando; basta ouvir os gritos no cinema quando Lautner tira a camisa - não ouvi nenhuma reação semelhante voltada pra Pattinson, nem no primeiro filme). Mas o set-up do romance deles é muito melhor. No primeiro filme, Bella bate o olho no vampiro e já está apaixonada, só por ele ser charmoso e misterioso. Com o lobisomem, a gente consegue entender melhor a natureza da atração. Os dois já se conhecem há bastante tempo; agora o menino está malhado e mais bonito... Há também uma tensão pelo fato do garoto ser mais novo que ela... Eles começam a se encontrar, fazer coisas juntos... A gente se envolve e acaba torcendo mais por este romance (que é palpável, realista, leve), do que pelo amor cafona de Pattinson que está sempre gemendo e soltando frases bregas como "Você já me dá tudo ao respirar!". Então nos entediamos no terceiro ato, pois Lautner tem que sair de cena e ficamos apenas com Pattinson citando Shakespeare.

Tirando isso, o filme é claramente superior a Crepúsculo em vários sentidos. Parte porque a história é melhor, parte porque tiraram a desengonçada diretora Catherine Hardwicke e colocaram Chris Weitz no lugar, que apesar de ter errado feio em A Bússola de Ouro, sabe contar uma história e tem algum senso de cinema. Eu não queria gostar do filme, mas minha atitude já foi abalada logo nos créditos iniciais - uma sequência de título cuja simplicidade e elegância me lembrou à do clássico Alien - O 8º Passageiro.

The Twilight Saga: New Moon (EUA, 2009, Chris Weitz)

INDICADO PARA: Meninas de todas as idades. Proibido para meninos adolescentes.

NOTA: 7.0