quarta-feira, 31 de março de 2021

Março 2021 - outros filmes vistos

Bad Trip (2021): 6.0

Comédia que mistura ficção com pegadinhas "reais" estilo Sacha Baron Cohen. Embora eu não goste deste formato, comparando com Borat, Bad Trip tem um humor mais bem intencionado, não é motivado por política — eu particularmente gosto mais, dei algumas boas risadas (Eric André parece um cruzamento dos irmãos Wayans com Jackass) mas claro que eventualmente a falsidade de algumas das pegadinhas começou a arruinar a graça pra mim. Tentei me esforçar pra tirar o foco disso (agir como um espectador "normal") e no começo estava dando certo, pois acho que muita coisa de fato pode não ter sido combinada... Mas bastou 1 cena obviamente desonesta, como a que o carro capota e "explode" a poucos metros de "pedestres", pra eu desconfiar de todo o resto e achar que o filme estava me chamando de burro. Valeu por algumas piadas no entanto.



Professor Polvo (My Octopus Teacher / 2020): 4.0

Indicado ao Oscar 2021, o documentário acompanha um cineasta/mergulhador no sul da África que forma uma "amizade" com um polvo, que o ensina a ser mais "humano" e a ter mais apreço pela natureza. Achei o filme triste e perturbador... Eu realmente não tenho essa visão romântica da vida selvagem; onde o cineasta enxerga beleza, eu vejo apenas vazio, uma existência horrível, um animal com uma vida curta, que vive sozinho, num estado de medo constante, onde tudo é sobre matar ou ser morto, cuja biologia é toda voltada pra se esconder, se proteger, escapar da morte, nada positivo. Algumas das cenas de animais comendo outros animais são de embrulhar o estômago, sem falar que o polvo é uma das criaturas mais feias do planeta — ver o cineasta tentando retratá-lo de forma poética é como a experiência de ver uma cena de amor entre a Sigourney Weaver e o "Facehugger" de Alien. Craig Foster não tem carisma pra carregar o documentário sozinho, e suas reflexões não são tão ricas a ponto de tornar documentário interessante do ponto de vista psicológico/filosófico. É curioso pensar como seu estado emocional acaba provocando essa visão trágica da vida; como o Senso de Vida de uma pessoa e as coisas nas quais ela escolhe focar definem todo o tom da realidade física ao redor dela. Consigo imaginar um outro documentário sobre o fundo do mar que não me causasse o mesmo incômodo, se narrado e dirigido por outra pessoa. Mas Craig Foster era claramente uma pessoa deprimida em sua vida anterior na "civilização". Ele foi pro mar e se apegou ao animal numa tentativa de fugir da realidade, da depressão, mas em vez de se livrar dela, ele parece apenas ter trazido sua escuridão para um novo ambiente.



The United States vs. Billie Holiday (2021): 6.5

Estava curioso pra entender por que a crítica não tinha gostado tanto deste filme (exceto pela performance de Andra Day), mas adorado A Voz Suprema do Blues, por exemplo, e me parece que o motivo é o fato da bússola política/moral do filme ser um pouco ambígua e às vezes ir contra os ideais progressistas do momento, o que é uma grande desvantagem se seu objetivo é ganhar prêmios. O filme tem seus problemas; o roteiro é um pouco confuso, desestruturado, e eu pessoalmente não sou fã dessas biografias que focam na decadência dos artistas. Mas em geral achei um filme honesto, e a performance de Andra Day de fato é incrível, uma dessas estreias no cinema que de tão maduras e acertadas parecem inexplicáveis.



Cherry - Inocência Perdida (Cherry / 2021): 6.0

Tom Holland faz um estudante que vai pra guerra do Iraque nos anos 2000, volta com Transtorno do Estresse Pós-Traumático e começa a se afundar em drogas e crimes. É um desses filmes tipo Réquiem para um Sonho que parecem se orgulhar de serem "barra pesada", e concentram seus esforços criativos não em coisas positivas, mas em retratar o fundo do poço dos personagens de forma impactante e "cool". Temas como drogas, crime, guerra, prisão são ótimos pra esse tipo de "culto à dor", e esse filme dá um jeito de costurar isso tudo numa trama só. É certamente envolvente, bem produzido — mas bem mais clichê e juvenil do que provavelmente gostaria de ser. 



Liga da Justiça de Zack Snyder (Zack Snyder's Justice League / 2021): 4.0

Não vi diferença alguma entre a primeira versão e esta em termos de qualidade cinematográfica — qualidade de história, direção, texto, performances, ação... Continua tudo tão vazio e enlatado quanto antes, apenas bem mais longo e pretensioso, o que na verdade torna o filme pior na minha visão — afinal, quando algo não é muito bom, o ideal é que seja o menos pretensioso possível (uma versão de 1h30 do filme talvez tivesse mais chances de subir no meu conceito do que esta de 4h, que apesar de ter todo o tempo do mundo, ainda não consegue criar uma experiência satisfatória, conclusiva, tendo que inserir vários ganchos no epílogo pra dar aquela sensação de que tudo não passou de um aperitivo e "o melhor ainda está por vir"). Me senti maratonando uma série de TV (coisa que não faço), como se algum seriado desses atuais tivesse se disfarçado de filme, empurrado o padrão estético da TV (e seus problemas) para o mundo do cinema, e conseguido me trapacear para consumi-lo.



The Mauritanian (2021): 7.5

História real de um prisioneiro de Guantánamo que ficou detido por anos sem provas concretas (por suspeita de envolvimento no 11/9), e uma advogada que lutou ao seu lado por justiça. É um daqueles filmes que parecem "estranhos" hoje em dia justamente por serem bons; por se parecerem com um filme de verdade, como se fazia antigamente... Há 20 anos talvez não fosse um grande destaque (não chega a ser tão bom quanto um Questão de Honra, que me parece a comparação mais óbvia), mas hoje merece reconhecimento por ter um roteiro sólido, ótimos atores, uma produção redonda, e por simplesmente ser decente em termos de valores... por conseguir contar uma história que fala de política, mas que não cai no discurso partidário vulgar, que nos lembra que racionalidade, justiça e liberdade estão acima de tudo, e são os únicos valores capazes de trazer pessoas de diferentes origens e crenças a algum acordo.



Raya e o Último Dragão (Raya and the Last Dragon / 2021): 6.0

Parece uma amálgama de Mulan, Moana e diversas produções recentes da Disney, tentando trazer uma mensagem de união, paz, ajudar a combater a polarização da sociedade atual, etc. A protagonista Raya é uma dessas "princesas" mais cínicas e modernas que me dão um pouco de preguiça, e o roteiro é extremamente clichê e familiar. Mas comparando com outras animações recentes, acabou me parecendo uma das menos negativas. A mensagem de união não chega a inspirar muito por ser bem fantasiosa e desconectada da realidade — em vez de sugerir que o bem pode vencer o mal, há uma noção meio mística aqui de que o mal nem existe no fundo, que se todos derem as mãos e confiarem uns nos outros, poderemos "voltar" a viver numa espécie de Jardim do Éden, etc. Há também a obsessão habitual por auto-sacrifício e uma série de toques duvidosos, mas na balança final acho que os pontos positivos compensam os negativos. Em termos de visual e de trilha sonora foi um dos filmes mais bonitos que vi no último ano.



Um Príncipe em Nova York 2 (Coming 2 America / 2021): 6.5

Sequência do sucesso de 1988, o filme tenta ser fiel à estética e ao espírito do original, e até que não se sai mal (os figurinos em particular continuam incríveis). O filme só não é tão engraçado quanto, em partes porque a história do primeiro era essencialmente mais cômica e divertida (a ideia de um príncipe africano disfarçado na América, animado pra viver como um pobre no Queens). No segundo, já existe um toque de correção política no coração da trama que estraga um pouco o humor e diminui o carisma de Eddie Murphy — sem falar que o rapaz que faz o filho dele foi um erro de casting grotesco, um dos personagens mais sem graça que já vi. Ainda assim, achei agradável e bem intencionado de modo geral.



Duas Tias Loucas de Férias (Barb and Star Go to Vista Del Mar / 2021): 5.0

Duas amigas inseparáveis que nunca viajaram resolvem ir de férias pra Flórida e viver uma grande aventura. Kristen Wiig e Annie Mumolo formam uma boa dupla e o começo é divertido (o humor é muito em cima da "cafonice" associada ao estado e a senhoras de classe média), mas como toda comédia atualmente, falta uma boa dose de seriedade no roteiro e principalmente uma curadoria melhor de piadas — as boas sacadas acabam sendo ofuscadas por outras que de tão péssimas te tiram a coragem de indicar o filme. Algo na linha de A Missy Errada (2020) ou Festival Eurovision da Canção (2020) - embora Eurovision ainda esteja uns pontinhos acima.



Meu Pai

Um homem idoso reluta em aceitar a ajuda de sua filha, enquanto lida com um tipo de demência que gera perda de memória progressiva. O filme é contado pelo ponto de vista dele, portanto a linearidade da história é constantemente quebrada pra gerar na plateia um estado de desorientação psicológica parecida com a do protagonista. É um ótimo filme pra assistir levando em conta o que discuti no texto 1999 e o Declínio da Objetividade. Aqui vemos mais uma vez a realidade objetiva sendo questionada, mas por uma tática diferente, esperta, pois retrata as percepções do personagem como sendo perfeitamente racionais, consistentes do ponto de vista dele, e mostra o protagonista como um homem particularmente orgulhoso de sua racionalidade, sempre tentando provar as coisas que percebe através da lógica — mas obviamente, quem vê de fora sabe que ele está apenas criando racionalizações, e está completamente desconectado da realidade. O filme não sugere subtextos políticos, mas achei interessante o fato da pessoa perdendo a razão aqui ser uma espécie de "patriarca", um homem do século 20, do "velho mundo", uma figura frequentemente diminuída no cinema atual — é quase como se o filme estivesse sugerindo que o conceito de objetividade estivesse morrendo e se tornando ultrapassado junto com essa geração, que a lógica do passado não fizesse mais sentido no mundo atual.

O filme é bem feito, tem personagens ricos, uma performance magistral de Anthony Hopkins, sutilezas interessantes como a obsessão do personagem por seu relógio de pulso, que ele vive esquecendo onde guardou — um instrumento de precisão que pode ser visto como suas últimas tentativas de se agarrar a algo objetivo, preservar um senso de controle (em determinada cena ele acusa a empregada de ter roubado o relógio, mostrando que suas racionalizações podem ser motivadas por preconceitos, não fatos). O filme não chega a mergulhar no subjetivismo a ponto de deixar o espectador completamente perdido na trama. Mas às vezes acaba parecendo um "one-trick pony" — foca demais nesse recurso narrativo, e a história vai se tornando um pouco monótona e repetitiva depois que isso deixa de ser novidade. Como o protagonista está perdendo sua mente, ele não tem como levar a história adiante, pois a essa altura já é incapaz de perseguir propósitos, ter grandes aprendizados ou transformações no filme. Ele parece impotente e perdido na maior parte do tempo, o que dá um tom mais episódico/Naturalista pra história. Se o filme focasse mais na filha, nos dilemas dela em relação a cuidar ou não do pai, se sacrificar ou priorizar seus planos, teríamos um arco mais satisfatório possivelmente. De qualquer forma, é um dos poucos filmes sólidos do Oscar 2021, que está lá por méritos artísticos, por conteúdo, não por fazer panfletagem política.

The Father / Reino Unido, França / 2020 / Florian Zeller

NOTA: 7.0

* Um detalhe que gostaria de comentar é que o filme está indicado ao Oscar de Melhor Edição, e vi alguns críticos como o Dalenogare elogiarem bastante a edição do filme, que pra mim não pareceu nada além de correta, eficiente. Mas vou comentar isso num texto separado, que poderá ser adicionado aos posts teóricos depois: 

Julgando edição e outros aspectos técnicos

terça-feira, 30 de março de 2021

1999 e o Declínio da Objetividade

Uma das coisas mais assustadoras da cultura atual é o desprezo pela razão e pela objetividade que pode ser visto não só no entretenimento, mas também na política, no jornalismo, nas discussões comuns entre pessoas etc. É difícil dizer o que exatamente deu início a essa era "anti-razão", "pós-verdade" em que vivemos — se foi a educação, a mídia, crises globais, etc. Mas o entretenimento sempre teve uma relação muito íntima com mudanças na cultura, e mesmo que ele não tenha sido a causa inicial dessa mudança, ele certamente respondeu a ela imediatamente, e acho interessante rastrear esse processo através dos filmes.

Creio que o ponto de virada que nos trouxe à situação atual (em termos epistemológicos) ocorreu no final dos anos 90. Antes de Matrix, por exemplo, não era normal o espectador (e o cidadão comum) ficar questionando a natureza da realidade, a validez da razão e das estruturas sociais no seu dia a dia. Filmes eram sobre acontecimentos concretos, se passavam numa realidade objetiva, estável, até mesmo quando retratavam coisas sobrenaturais. Se aliens invadissem a Terra, eram criaturas sólidas, com características específicas, e o herói tinha que usar a razão pra solucionar o problema da mesma forma que a usaria pra resolver qualquer outro problema mundano.

É interessante lembrar que ao longo dos anos 80/90, eram comuns filmes de grande orçamento onde cientistas eram personagens principais. E não apenas técnicos, nerds, mas figuras heroicas, admiráveis, como Jodie Foster em Contato, Sam Neill em Jurassic Park, Pierce Brosnan em O Inferno de Dante, Helen Hunt e Bill Paxton em Twister (sem falar que vários desses filmes eram baseados em livros escritos por cientistas de fato). Quando criança eu sonhava em ser inventor por causa de filmes como De Volta para o Futuro ou Querida, Encolhi as Crianças... arqueólogo por causa de Indiana Jones... A impressão que os filmes davam é que tudo de fantástico que pudesse acontecer no mundo aconteceria por causa de cientistas, pessoas criativas inventando algo novo. Usar a razão pra lidar com a natureza e resolver problemas era uma virtude constantemente celebrada nos filmes. Questões emocionais subjetivas podiam fazer parte das histórias também, mas não eram o foco principal, existiam para dar certa profundidade à história, gerar mais conexão e envolvimento.

Mas no fim dos anos 90, as coisas começaram a mudar. Lembro de sair da sessão de Matrix com alguns familiares, e as pessoas estavam realmente confusas, perplexas. Havia algo de novo naquele filme, que fazia a gente pensar de uma maneira nada familiar. Matrix não foi o primeiro sucesso desse período a questionar nossa percepção da realidade, mas se destacou por abordar essa questão de forma explícita e inovadora. No ano anterior, em 1998, O Show de Truman já começava a estimular na plateia certos questionamentos existenciais que não eram comuns na cultura mainstream. E se nossa vida não passasse de um reality show? Um grande palco pra vender produtos? Mas 1999 foi o ano que marcou essa transição. Depois de O Sexto Sentido, ninguém mais confiava 100% na realidade da trama de um filme de terror (o que foi reforçado em 2001 com Os Outros). Depois de Matrix, nenhuma cena de ação precisava mais fingir qualquer respeito pelas leis da física. A Bruxa de Blair nos fez questionar se o próprio filme em questão era cinema ou um pedaço de evidência. Um filme realista podia subitamente ter uma chuva de sapos sem maiores explicações (Magnólia). Clube da Luta, assim como O Sexto Sentido, mostrou que não só não podíamos mais confiar nas nossas percepções, como trouxe isso ainda pra mais perto da nossa realidade: agora não era mais necessário o sobrenatural ou algo fantástico existir pra colocar a realidade objetiva em xeque: nossos problema psicológicos já estavam fazendo isso o tempo todo. Até mesmo a noção de família foi desafiada e exposta como uma farsa, quando Beleza Americana levou o Oscar de Melhor Filme.

Daí pra frente não houve mais volta. No começo dos anos 2000, vimos Donnie Darko Cidade dos Sonhos se tornarem cults instantâneos, Charlie Kaufman se tornar o roteirista mais cobiçado do mundo com Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, uma avalanche de filmes sobre pessoas com distúrbios psicológicos (Uma Mente Brilhante, A Identidade Bourne, Efeito Borboleta) e é claro, o surgimento daquele que iria encabeçar essa nova onda e levá-la para as décadas seguintes: Christopher Nolan, com Amnésia. O subjetivismo se tornou o "padrão ouro" do cinema. Filmes que focavam em ações concretas e não traziam uma mensagem subjetivista, algum tipo de questionamento existencial, já pareciam datados, pouco sofisticados, menos "sexy".

É importante dizer que muitos filmes desse período ainda eram excelentes. Eles questionavam a realidade, nossos sentidos, mas faziam isso através de tramas inteligentes, compreensíveis, se comunicavam de maneira racional com o espectador — eram "objetivos ao questionarem a objetividade", pois traziam uma herança das décadas anteriores, dominadas por uma epistemologia mais racional (e principalmente, um respeito pelo talento). Mas obviamente, isso apresenta uma contradição, e contradições tendem a buscar uma resolução ao longo do tempo.

Conforme avançamos nos anos 2000 e 2010, esse elemento racional foi sendo abandonado pouco a pouco, e o subjetivismo deixou de ser apenas um tema discutido dentro de filmes racionais, mas foi sendo incorporado na própria forma em que os filmes eram feitos e as histórias eram contadas. Enquanto Matrix (1999) tinha um roteiro bem estruturado, contava com a racionalidade e o foco do espectador para transmitir a ideia de que a realidade é uma ilusão, A Origem (2010) já apresenta uma narrativa caótica, e conta com a irracionalidade e a confusão mental do espectador para sugerir a mesma ideia. A Origem destrói a capacidade cognitiva do espectador como tática para promover a mensagem anti-razão, o que é muito mais eficiente (da mesma forma que livros de certos filósofos subjetivistas são frequentemente impossíveis de entender e de serem lidos em foco, e o estado de confusão mental provocado pelo estilo da escrita trabalha para validar a mensagem de que a razão é inválida).

Esses temas foram se tornando cada vez mais comuns nos filmes, ao ponto que hoje, se eu fosse com familiares ver um filme como Matrix ou Clube da Luta no cinema, ninguém ficaria minimamente surpreso. Questionar a realidade objetiva já faz parte dos hábitos mentais do espectador comum. Por exemplo: outro dia na rua, um amigo caminhando ao meu lado deixou cair algo no chão e parou pra pegar... Eu não percebi e continuei andando, até que alguns segundos depois me surpreendi com sua ausência e olhei pra trás intrigado. Ele riu e brincou: "Imagina se você olhasse pra trás e eu não estivesse lá? E você descobrisse que eu fui uma projeção da sua mente todos esses anos?". Uma brincadeira casual, mas que provavelmente apenas um roteirista criativo teria feito 30 anos atrás. Hoje, são coisas que a gente pensa a todo momento, pois fomos treinados por centenas de filmes ao longo de 2 décadas a questionar a realidade do mundo ao nosso redor — da mesma forma que quando eu era pequeno, eu imaginava constantemente a possibilidade de uma invasão extraterrestre, ou de um meteoro entrar em rota de colisão com a Terra, ou de dinossauros voltarem à vida etc.

Pensar em desastres pode soar algo negativo, mas enquanto os filmes afirmavam que podíamos lidar com esses problemas racionalmente, eles promoviam um senso de otimismo. Agora quando a razão e a realidade objetiva começam a ser questionadas, a primeira coisa que vai embora é o otimismo. Dificilmente um personagem descobre que sua realidade é falsa, que tudo é relativo, que sua mente não está em contato com a realidade, e isso resulta em autoconfiança, em uma história alegre e inspiradora. Subjetivismo vem sempre acompanhado de pessimismo, melancolia e cinismo. Portanto, não é acidente que no final dos anos 90, junto com o subjetivismo, os filmes começaram também a ficar mais sombrios (e com o 11 de Setembro, que tornou o pessimismo a nova realidade da cultura americana, essa tendência parece ter se tornado irreversível).

Outra coisa que começa a ir embora com a objetividade é o talento e os padrões de qualidade. Pois enquanto um filme respeita a objetividade da plateia, tudo nele precisa significar algo, tudo tem que ser comunicado claramente, fazer algum sentido, ser feito com competência, portanto as exigências sobre os criadores são muito maiores — da mesma forma que um modelo precisa ser realmente atraente pra ser fotografado em plena luz do dia, com uma lente cristalina, em foco total — mas as exigências diminuem bastante no escuro, numa atmosfera nebulosa, com uma lente turva (o que indica por que muitas pessoas se sentem atraídas pela "névoa" do subjetivismo). Se um filme é livre para ter finais abertos, contradições internas, buracos na trama, coisas aleatórias, não precisa ter um impacto específico na plateia, afinal tudo é uma experiência subjetiva, emocional, tanto para os personagens da história, quanto pro artista criando o filme, quanto pro espectador na poltrona, muito menos habilidade é exigida dos realizadores. 

É difícil dizer o que começou primeiro, se foi o declínio do talento, da objetividade, do otimismo — mas uma virtude essencial, quando rejeitada, vai sempre arrastando as outras pra baixo com ela. Portanto se os filmes já foram talentosos, objetivos e otimistas, eles passaram para talentosos, semi-objetivos e mais sombrios, e terminaram amadores, irracionais e deprimentes.

Durante os anos 70–90, filmes de terror costumavam ser sobre vilões e monstros reais, com identidades bem estabelecidas. E mesmo quando apareciam só nos sonhos dos personagens (como em A Hora do Pesadelo) havia um senso de que era uma criatura real no universo do filme, que outros personagens podiam vê-lo também, e que ele podia ser derrotado através de alguma ação inteligente. Agora observe a quantidade de filmes de terror hoje em dia onde o monstro no fundo não existe concretamente, nem mesmo no universo do filme — é apenas uma metáfora, uma maneira simbólica do filme retratar algum problema emocional do protagonista. Tudo no cinema se tornou sobre emoções, sobre a experiência subjetiva do personagem. Pense nos inúmeros filmes de ficção-científica recentes onde em vez de lidarem com a natureza, com o mundo externo, solucionarem problemas científicos, os cientistas terminam apenas lidando com traumas pessoais, relações familiares, sentimentos de perda — como O Céu da Meia-Noite ou Interestelar, por exemplo, onde ciência e emoções se tornam indistinguíveis.

Nos filmes atuais, a solução para os problemas não está na racionalidade, na competência, na criatividade, em saber lidar com a natureza — e sim em algum tipo de "cura emocional". Até filmes mais mainstream, que não trazem discussões filosóficas pretensiosas, promovem essa ideia ao colocarem todo o foco das histórias nas emoções dos personagens. Por exemplo: personagens de animações infantis não buscam mais o amor verdadeiro, não precisam derrotar um monstro de fato, não têm que desenvolver habilidades interessantes. Tudo é sobre a "cura emocional". Os problemas de Elsa em Frozen se derretem quando ela aprende a lidar com suas emoções. Raios mágicos trazem paz e abundância ao mundo de Raya e o Último Dragão no momento em que a vilã deixa de ser fria e aprende o valor da confiança. Em Festa no Céu, em vez de matar o touro no duelo final, o herói pega um violão e canta uma canção de paz, pois entende que seu maior problema no fundo é o medo de ser autêntico, e quando ele supera isso, o monstro demoníaco a sua frente se desintegra.

A cura emocional é o novo "príncipe encantado", o novo "matar o monstro", o novo "passar na audição", o novo "sobreviver ao desastre", o novo "criar DNA de dinossauro". Todos os seus sonhos parecem se tornar realidade uma vez que você foque nas suas emoções e elimine conflitos internos (como se nosso universo interno estivesse desconectado do externo, ou melhor, como se ele criasse o universo externo, e nós pudéssemos atingir a felicidade apenas manipulando nosso estado interior, sem depender de ações no mundo real: obter consequências sem causas, recompensas sem ações). O que obviamente é uma mensagem perigosa — e se você nasceu nos últimos 20/25 anos, essa é uma das principais ideias que você absorveu da cultura popular.

Não que emoções não sejam importantes. Elas só não devem ser utilizadas como meios de cognição, colocadas acima da razão, especialmente quando surge algum conflito entre uma coisa e outra (e quanto menos racional você é, mais conflitos surgem). Filmes do passado não eram anti-emoção, mas emoções não eram tratadas como o principal referencial das pessoas. Como ilustrado no curta da Disney, Reason and Emotion (1943), sanidade exige que a razão ocupe o "assento do motorista", e que emoções permaneçam no banco do passageiro. Se há um conflito entre fatos e emoções, você aceita os fatos, mesmo que isso te cause desconforto emocional por um tempo. Esse era o senso comum no passado. Mas hoje, se surge um conflito entre fatos e emoções, é a razão que é jogada pro banco de trás.

Portanto não é surpresa que todos hoje desconfiem da ciência, das notícias — já que nos filmes, até as mentes mais racionais e brilhantes parecem cegas para a realidade e no fundo são motivadas por emoções subjetivas (e se os cientistas de hoje sofreram influência o bastante da cultura, eles podem de fato ter perdido a objetividade, e assim entramos no velho ciclo onde o subjetivismo se retroalimenta de suas próprias crias). Não é surpresa que a liberdade de expressão esteja em constante ataque: se emoções são a base de toda sua existência, palavras e insultos se tornam tão destrutivos quanto violência física; ambos representam uma ameaça para a "cura emocional" que é a chave de tudo. Desinteressadas na realidade, as pessoas foram perdendo (ou nem chegaram a desenvolver) a sensibilidade para distinguir verdade de mentira, fatos de opiniões e sentimentos.

Como cinéfilo, minha grande perda nisso tudo tem a ver com os filmes. Mas esse declínio da objetividade é uma questão que deveria preocupar a todos, pois atinge a sociedade em todos os aspectos e tem graves consequências a longo prazo. Não é possível colocar um satélite em órbita através da "cura emocional", inventar o iPhone através da "paz interna", assim como não é possível produzir Lawrence da Arábia focando na "sua verdade".

Quanto tempo o equilíbrio emocional de uma pessoa poderá durar quando o mundo físico começar a desmoronar ao redor dela? E não precisamos nem esperar o mundo físico ruir pra sofrermos as consequências dessa mentalidade. Afinal, até pra solucionar problemas emocionais é preciso usar a razão: se você atinge sucesso no mundo material, ou sucesso na sua vida emocional, em ambos os casos, foi seu lado racional que tornou isso possível. Se você observar o estado emocional das pessoas hoje em dia, o tom de revolta, confusão e pessimismo que marcou a última década, talvez essa seja a maior prova de que o subjetivismo só leva à destruição, e que sua primeira vítima é o próprio equilíbrio emocional que as pessoas tanto buscam.

domingo, 28 de março de 2021

Seaspiracy: Mar Vermelho

O nível de burrice e irracionalidade aqui é tão extremo que é daqueles casos onde eu realmente começo a questionar a saúde mental de alguém que acredite plenamente na narrativa apresentada pelo filme — a pessoa pra mim começa a entrar na categoria de terraplanistas ou coisas piores. Não é preciso ter conhecimento especializado sobre oceanos pra detectar a desonestidade intelectual do cineasta, basta ter algum senso de lógica, observar a coerência interna dos argumentos (ou a falta dela), e as estratégias pelas quais o documentário tenta passar "informações" e persuadir o espectador. É puro teatro, entretenimento para pessoas com um viés de esquerda (e um Q.I. baixo) relaxarem num domingo à noite. O grande "benefício" do documentário talvez seja que, em sua obsessão por provar que a pesca comercial (o fato de seres humanos comerem peixes) é de longe o maior problema ambiental do planeta, ele acaba minimizando a importância de todas as outras causas favoritas dos ambientalistas. Ele afirma que canudos plásticos são insignificantes e representam uma porcentagem desprezível do plástico no mar... Que as emissões de gases por automóveis no mundo todo não são nada perto das consequências da pesca para a atmosfera... Diz que grandes vazamentos de óleo no oceano não são grande problema, e na prática são até bons, pois durante um período diminuem a pesca na região! É estranho, pois o filme fala de pescadores como se estivesse falando de pessoas garimpando ouro, um material raro, prestes a ser extinto, impossível de se reproduzir (sugere que os peixes estão quase acabando nos oceanos, e ao mesmo tempo se contradiz dizendo que 80% da vida do planeta vive nos mares, e que a maior parte dos oceanos permanece inexplorada até hoje). Pense... Será que existem mais ou menos galinhas no mundo pelo fato delas servirem de alimento para humanos? Mais ou menos vacas do que existiriam caso elas não tivessem utilidade alguma para nós? E porcos? Indústrias que precisam de morango para produzir certos produtos, saem por aí tentando achá-los na natureza, e depois ficam sem quando acabam com todos? Ou passam a cultiva-los? Outra pérola é um trecho onde eles falam do "absurdo" dos americanos gastarem 35 bilhões de dólares por ano pra subsidiar a indústria da pesca, enquanto apenas 30 bilhões seriam necessários para combater a fome mundial. Mas pera aí... Se as pessoas que comeriam os peixes não tiverem mais peixes no menu, elas não terão que comer outra coisa no lugar? E o investimento para essa outra indústria agora não terá que subir em 35 bilhões ou algo equivalente? E será que tudo bem pro cineasta comermos outros animais, que não peixes? Ou apenas plantas são permitidas? Pois certamente deve dar pra achar outros documentários tão "sérios" quanto Seaspiracy na Netflix que revelam os horrores da indústria agropecuária (Cowspiracy?), expõem os males do desmatamento, etc. Esses documentários politizados da Netflix parecem ter ocupado o lugar que antigamente era ocupado por documentários sobre abduções por OVNIs, autópsias em extraterrestres, ou por tablóides de supermercado cujas manchetes anunciavam o homem "meio-humano, meio-jacaré" (que pelo menos eram divertidos e inofensivos politicamente). Se notícias falsas podem dar banimento em redes sociais hoje em dia, o que mereceria alguém que produz um documentário inteiro disseminando mentiras ridículas e mal intencionadas como essas?

Seaspiracy / EUA / 2021 / Ali Tabrizi

NOTA: 0.0

terça-feira, 16 de março de 2021

O Tigre Branco

Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, o filme conta a história de um garoto indiano pobre que passa a trabalhar como motorista para uma família milionária e começa a mudar suas crenças em relação a dinheiro, riqueza e tradições culturais. Apesar do meu Alerta Vermelho ter soado logo no início (por causa da atitude cínica do narrador em relação ao capitalismo, aos EUA, etc.), acompanhei a história com curiosidade e até com uma leve simpatia pelo personagem principal, que a princípio me parecia apenas uma vítima da cultura indiana (que prega submissão, pobreza, auto-sacrifício etc.). Estava vendo potencial pra um tema positivo na trama — pensei que ele poderia se libertar de suas "crenças limitantes", desenvolver uma mentalidade empreendedora saudável, e quem sabe até ir embora do país. Foi só no 3º ato que vi que estava enganado, e que se trata de mais um filme do gênero "kill the rich" para as plateias estúpidas e ressentidas da atualidade se sentirem vingadas.

Se a cultura indiana anti-sucesso é mostrada negativamente pelo filme, a alternativa que ele apresenta não é muito melhor... É a típica visão de mundo onde ou você é presa, ou você é predador; onde ou você é devorado, ou você devora; onde ou você é pobre, oprimido e miserável (mas honrado), ou você abre mão da ética e se torna um rico ladrão, corrupto e opressor, mas que vive a boa vida (o protagonista é "esperto" o bastante para escolher a 2ª opção). Pense em quem é que se sente confortado com essa interpretação da realidade. A pessoa honesta, que aceita os fatos, que quer apenas o que é justo e merecido? Não — os fracassados medíocres, desonestos, que dessa forma podem acreditar que não são ricos pois são "bons demais", que aqueles que têm mais que eles não têm virtude alguma; e também os trapaceiros, malandros, bandidos, que agora podem acreditar que não tiveram escolha, que não são responsáveis por tudo de criminoso e abominável que tiveram que fazer na subida ao "topo".

Há muito em comum com Parasita aqui, inclusive essa noção de que a moralidade é um "luxo" apenas para os que nascem ricos. Mas Parasita é um filme mais cômico, mais alegórico, que dá pra assistir sem levar tão a sério. Já O Tigre Branco é um filme que, apesar do tom irônico, tenta parecer mais realista, discutir questões sociais de maneira mais madura, equilibrada. [SPOILER] Então quando ele mostra o protagonista roubando, assassinando o patrão, e trata isso como se fosse um mal necessário, sem mostrá-lo pagando o preço depois, decaindo no final — mas se tornando confiante e bem sucedido, isso é ainda mais chocante e odioso.

É um filme bem realizado, bem escrito (além do texto ser inteligente, a história é envolvente, bem estruturada), mas que treina os espectadores (como tantos filmes hoje) para enxergarem os ricos como ladrões, trapaceiros, exploradores, que devem ser destruídos e ter suas riquezas expropriadas. 

The White Tiger / India, EUA / 2021 / Ramin Bahrani

NOTA: 4.5

sexta-feira, 5 de março de 2021

Como a diversidade está arruinando o cinema

Vendo o Globo de Ouro 2021 ficou claro não só pra mim, mas para muitos, que esse foi um dos piores anos da história do cinema em termos de qualidade. Ficou evidente também que foi um dos anos mais "diversos" do Globo de Ouro, onde mais minorias ganharam prêmios, onde mais mulheres foram indicadas como diretoras... Será que esses 2 fatos são coincidentes? Provavelmente não. Calma, não estou dizendo que as minorias sejam menos competentes do que os americanos brancos héteros — apenas que a forma como a diversidade vem sendo imposta em Hollywood é destrutiva para o cinema (espero que como gay, não americano, membro de um casal "inter-racial" e fora da indústria, eu possa falar isso sem parecer ter uma agenda racista/xenofóbica/interesseira oculta).

A imposição atual de diversidade é basicamente uma fórmula para diminuir qualidade de resultado, algo que ocorre não só no cinema mas em qualquer área onde essa mentalidade é aplicada. É apenas uma consequência lógica: pra obter o melhor resultado em qualquer coisa, você tem que ser livre para selecionar os melhores profissionais, considerando antes de mais nada a capacidade deles de entregarem o melhor resultado. Se você coloca na equação uma segunda exigência arbitrária, por exemplo, "alguém capaz de entregar o melhor resultado, mas que também seja sul-coreano", você já diminui consideravelmente o leque de opções, e o resultado será provavelmente pior do que se você pudesse ter considerado todas as opções disponíveis, visando o melhor resultado possível. Isso ocorreria até se você impusesse limitações em questões aleatórias, que nada tivessem a ver com etnia, nacionalidade — por exemplo, exigir diversidade em termos de signos do zodíaco.

Imagine esse processo se repetindo dezenas de vezes na produção de um filme — questões de diversidade sendo priorizadas não apenas no elenco, mas em toda a equipe, em toda a produção (pra poder concorrer ao Oscar, a Academia agora está exigindo representatividade em vários aspectos dos filmes, às vezes até no conteúdo das histórias).

Não me parece coincidência que os filmes estejam se tornando mais fracos ao mesmo tempo em que essas tendências se tornam mais e mais fortes em Hollywood. É ignorância achar que existe um número infinito de pessoas talentosas, que não faltam excelentes escritores, diretores, atores em qualquer país ou grupo social, a qualquer momento, e que portanto exigir diversidade não interfere em nada na qualidade do resultado. Quanto melhor um filme e melhor um cineasta, mais você verá uma equipe cuidadosamente selecionada, parcerias insubstituíveis, sintonias especiais que às vezes se assemelham a de relacionamentos românticos, e que só acontecem quando o produtor/diretor tem total liberdade de escolha, quando está atento a todas as possibilidades, empenhado em encontrar as melhores parcerias possíveis.

Algumas áreas e indústrias não exigem um processo tão rigoroso de seleção, não exigem profissionais tão específicos e raros para chegar num bom resultado. Mas quando estamos falando de Oscar, de grandes produções de Hollywood, estamos falando de reunir o que há de mais profissional e de mais talentoso no mundo... Não estamos falando de bons profissionais apenas, de pessoas competentes. Mas das mais habilidosas do ramo. De celebrar talentos raros. E obviamente, se um profissional está entre os melhores do mundo, é porque não existem 200 alternativas igualmente boas para você escolher. Se houvesse, então é porque ele ainda não estaria entre os melhores, e portanto não deveria ser a escolha final para as produções mais ambiciosas. São nessas áreas que buscam o grau máximo de excelência onde limitações e burocracias do tipo se tornam especialmente destrutivas (não estou dizendo que em todas as situações existe sempre 1 única opção perfeita, como um ideal platônico, apenas que as opções se tornam cada vez mais escassas conforme você se aproxima do "topo da pirâmide"; e que nesse momento, impor questões como diversidade te força a permanecer sempre uns degraus abaixo, onde há um número maior de candidatos).

Um dos principais dons que um diretor deve ter é saber se cercar dos melhores profissionais, para que estes lhe ajudem a criar o melhor filme. Pense no que acontece quando você coloca uma série de travas e obstáculos nesse processo extremamente delicado — quando um estúdio já seleciona o próprio diretor (que é a figura mais importante de um filme) com base em questões de diversidade, e esse diretor (que agora já não é o melhor possível) usa o mesmo critério na seleção de todas as outras pessoas chave da equipe?

O movimento atual da diversidade é um movimento anti-qualidade. E se você pensar que "qualidade" nada mais é do que algo que serve bem à vida humana — assim como uma comida de qualidade é aquela que tem os melhores ingredientes, que nutre melhor o organismo, que é mais saborosa — podemos dizer que a diversidade se tornou um movimento anti-vida, pois foi colocada acima de questões mais importantes como habilidade (e com menos habilidade, tudo o que é produzido se torna pior, e por consequência nosso padrão de vida diminui). Isso talvez não fique tão evidente no mundo do cinema, pois as consequências da arte mal feita não são letais a curto prazo (tenho certas dúvidas quanto ao longo prazo), mas pense nesse mesmo raciocínio sendo aplicado a outras atividades... à indústria... à medicina... Imagine você tendo que fazer uma cirurgia complicada, e não poder selecionar os médicos com base em competência, em qualidade de resultado... Imagine o médico não ter liberdade pra selecionar sua equipe (o anestesista, etc.) com base naquilo que trará os resultados mais garantidos, mas ter que necessariamente selecionar pessoas levando em conta questões irrelevantes para o contexto, como etnia, orientação sexual? Isso não criará limitações no processo de escolha? E limitações desse tipo não resultam, pela lógica demonstrada, em resultados menos ideais do que seriam possíveis?

A cultura de hoje está sendo inteira levada a abraçar essa mentalidade, sob uma falsa aura de benevolência. Enquanto essas políticas de diversidade não forem questionadas e a cultura não voltar a priorizar mérito, habilidade, talento, teremos que nos acostumar com padrões de qualidade cada vez mais baixos.

Índice: Artigos e Postagens Teóricas

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Fevereiro 2021 - outros filmes vistos

Judas e o Messias Negro (Judas and the Black Messiah / 2021): 6.0

É fácil criticar as fórmulas e clichês dos filmes de super-heróis, das animações infantis, mas nesse último ano se você for pensar, o clichê mais abusado de todos foi esse de pegar histórias reais passadas nos anos 60 sobre líderes negros, conflitos sociais, pra traçar aquele paralelo "surpreendente" com a atualidade, etc. Diferente de Uma Noite em Miami (2020) que pelo menos tenta promover uma discussão equilibrada, esse aqui é explicitamente pró-socialismo, retrata os Panteras Negras como grandes heróis, então não vai agradar a todos... Lembra muito Mangrove (2020), mas é melhor cinematograficamente. É o Infiltrado na Klan (2018) deste ano.



Music (2021): 3.5

Música tem um efeito poderoso no cinema; quando bem usada, pode transformar uma cena banal em um momento inesquecível. O perigo é que quando combinada com mau gosto, o efeito potencializador é o mesmo — talvez por isso pareça haver algo de transcendental na ruindade de filmes como Cats (2019). Music não está no mesmo nível de desastre, mas em alguns momentos chega perto. Maddie interpretar uma autista não sendo autista é o menor dos problemas... O problema mesmo é a tentativa de tornar deficiência mental, vício em drogas e AIDS temas apropriados pra um musical pop, especialmente quando as sequências são mal dirigidas, o elenco parece errado, algumas das músicas são bem fracas... Sia disse numa entrevista que odeia musicais (embora ela goste de La La Land, o que faz sentido). Sendo o gênero mais difícil de dirigir, e ela nunca tendo dirigido nenhum filme antes, foi meio que pedir pra dar errado.



Eu Me Importo (I Care a Lot / 2020)

Achei tão repugnante que não consegui ver mais que 1 hora. No começo ainda tive a esperança da história virar uma espécie de crítica ao governo, por permitir violações de liberdades tão revoltantes (e reais) quanto as ilustradas pela história, o que teria sido interessante. Fiquei na expectativa da personagem da Rosamund Pike ser claramente identificada como a vilã, da Dianne Wiest dar a volta por cima e preparar uma vingança genial... Mas aos poucos o filme vai provando que tem uma bússola moral podre, que na verdade sua simpatia está mais pro lado da vilã, e até onde vi não há condenação alguma do governo — para os críticos, o filme na verdade é uma crítica ao "capitalismo tardio" (a noção popular que o capitalismo seria um jogo de soma-zero que cria uma sociedade de predadores e presas, etc.). Tolice minha esperar algo diferente do cinema atual.



Saint Maud (2019): 5.0

Um desses pseudo filmes de terror da A24 (A Bruxa, Midsommar), onde o elemento sobrenatural é apenas uma metáfora para uma discussão mais pretensiosa sobre psicologia, religião (a diversão do filme é criar uma caricatura de fanáticos religiosos pra mostrar como eles são perturbados — um alvo pouco clichê e seguro demais pra um filme que quer parecer "avant-garde"). Gostei das atrizes e tecnicamente o filme é bem feito, mas infelizmente há muito daquilo que discuto nos textos sobre simbolismo e pseudo-sofisticação.



Malcolm & Marie (2021): 6.5

Drama de relacionamento sobre um diretor de cinema e sua namorada que voltam da pré-estreia de seu novo filme e entram em uma série de brigas e discussões pesadas ao longo da madrugada. Pra mim pareceu como se um adolescente estivesse tentando fazer algo na linha de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1968) mas sem a experiência de vida necessária pra sustentar o material. Mas apesar do texto não ser tão maduro e genial quanto gostaria de ser (o elenco jovem/descolado também não ajuda), há bastante conteúdo psicológico, diálogos fortes, e os cinéfilos em particular devem se divertir com as discussões sobre a indústria do cinema (embora o filme não seja exemplo de Idealismo, ele tem uns discursos curiosos contra o Naturalismo, contra a politização do cinema, etc.).



Cena do Crime - Mistério e Morte no Hotel Cecil (Crime Scene: The Vanishing at the Cecil Hotel / 2021): 7.0

Série documental da Netflix sobre o desaparecimento misterioso de Elisa Lam em 2013 que levou a internet à loucura. Vi alguns documentários parecidos recentemente (como o primeiro episódio de Mistérios Sem Solução e o documentário Cenas de um Homicídio: Uma Família Vizinha) mas a história de Elisa e do Hotel Cecil são tão fascinantes que o fato do gênero estar um pouco saturado não chegou a atrapalhar. Além de envolvente e satisfatória como puro entretenimento, a série ainda tem um papel de sutilmente educar o espectador e combater certas irracionalidades que dominam a cultura atual como a cultura do cancelamento e as teorias da conspiração. É incrível ver como somos atraídos facilmente por narrativas fantásticas, como queremos muitas vezes que o impossível seja real, como as pessoas precisam sempre de um bode expiatório pra justificar todos os males, e como tudo isso pode ser abalado facilmente por um pouco de informação e fatos simples — como entender a funcionalidade de um botão de elevador, ou saber se algo estava tampado ou destampado em determinado momento.



Framing Britney Spears (2021): 7.5

Documentário do New York Times sobre a situação de Britney Spears, que desde o colapso emocional de 2007/2008 vive sob a tutela do pai e não tem controle sobre sua vida e seus bens. Uma história triste que reflete o pior do ser humano e me lembrou muito do artigo da Ayn Rand sobre como a sociedade "assassinou" Marilyn Monroe.




A Escavação (The Dig / 2021): 6.0

Carey Mulligan faz uma viúva britânica que contrata um arqueólogo (Ralph Fiennes) pra escavar áreas de sua propriedade onde ela acredita haver alguma antiguidade enterrada — uma história real que levou a uma das maiores descobertas arqueológicas da história do Reino Unido. O filme é um tanto morno, está mais preocupado em recontar os fatos históricos do que em proporcionar uma experiência emocionante para o público, em passar uma mensagem interessante etc. Se existe alguma reflexão profunda aqui sobre a vida, morte, guerra, fica tudo num subtexto que não chega a ser suficiente. Ainda assim, as imagens bonitas, os personagens elegantes e a história curiosa tornam o filme levemente agradável (serve talvez como um descanso da histeria e da negatividade do cinema atual).





sábado, 20 de fevereiro de 2021

Rodgers and Hammerstein's Cinderella (1997)

Nunca tinha visto nenhuma versão do musical Cinderela, mesmo sendo fã de Rodgers & Hammerstein. Diferente dos outros musicais deles que foram escritos para a Broadway, Cinderela foi escrito originalmente para a televisão — um especial ao vivo estrelado por Julie Andrews que foi assistido por mais de 100 milhões de pessoas nos EUA em 1957 (bem antes de Julie ser imortalizada em A Noviça Rebelde, também de R&H). Houve uma outra produção em 1965, mas a mais conhecida hoje é o filme de 1997, também feito pra TV, estrelado por Brandy e produzido por Whitney Houston (que faz a fada madrinha). Como era algo feito pra TV — e pela capa já dava pra sentir que era uma produção de gosto duvidoso — acabei nunca dando uma chance, mesmo tendo curiosidade de conhecer as músicas. Agora o filme saiu no streaming pela primeira vez e resolvi assistir.

De fato ele é mal dirigido e meio tosco visualmente, o que me fez refletir sobre o papel crucial do diretor no cinema, pois mesmo essa sendo uma história clássica e infalível, tendo música de 2 dos maiores gênios do teatro musical, sendo uma produção de uma companhia como a Disney (ainda numa fase saudável ideologicamente) e com um elenco sólido, se tudo isso é colocado nas mãos de um diretor medíocre, o que tinha potencial pra ser um grande clássico se torna apenas uma Sessão da Tarde esquecida no tempo. Mas o lado meu que foi capaz de ignorar esses problemas, no fim ficou bastante encantado pelo filme. Quando existe talento escondido numa obra, isso sempre se revela mesmo com uma má execução. A primeira coisa que me fisgou foi a canção "In My Own Little Corner" que eu nunca tinha escutado... Poucos compositores além de R&H conseguem me tocar dessa forma apenas com uma combinação perfeita de acordes, melodia e letra. 

Mas além do lado musical, o filme pra mim já se tornou uma referência no debate entre Idealismo vs. Anti-Idealismo, pois ainda nos anos 90 ele foi capaz de trazer uma diversidade surpreendente pra produção, apresentar uma princesa Disney negra, um elenco "racialmente cego" — algo visto como inovador até hoje em séries como Bridgerton — só que Cinderela fez isso de maneira que não comprometeu a essência da história e nem feriu princípios Idealistas. Cinderela é tão bela e pura de espírito quanto a do desenho de 1950, a história é igualmente otimista e romântica... Os atores apenas têm características físicas diversas, o que nesse caso não afeta em nada a magia da história. Se fizessem uma adaptação assim na cultura de hoje, além da diversidade racial, teríamos também uma Cinderela menos bonita, menos positiva, veríamos relacionamentos mais conflituosos, o visual seria menos colorido, a música seria cheia de Rap e palavrões tipo Hamilton, etc. 

Cinderella / EUA / 1997 / Robert Iscove

NOTA: 7.5

Índice: Artigos e Postagens Teóricas

Tinha tirado as postagens teóricas do ar temporariamente pois muitas delas foram aperfeiçoadas e corrigidas pra fazerem parte do livro. Agora elas já estão todas de volta, com o texto atualizado.

Capítulos do livro Idealismo: Os Princípios Esquecidos do Cinema Americano:

PARTE I – APRESENTANDO A IDEIA

1. Introdução

2. O que é Idealismo

3. O que nos atrai ao Idealismo?

4. Senso de Vida e preferências artísticas

5. A intenção de um filme

PARTE II – OS ELEMENTOS DO IDEALISMO

6. Os 4 Pilares do Idealismo

7. As 5 Histórias Idealistas

8. O que torna um personagem gostável?

9. Objetividade na Direção

10. A Primazia do Espectador

11. Motivação do Personagem (e da Plateia)

12. O Princípio da Ascensão

13. O Princípio do Contraste

14. Set Pieces e grandes cenas

PARTE III – OS INIMIGOS DO IDEALISMO

15. Idealismo, Não Idealismo e Anti-Idealismo

16. Naturalismo

17. Experimentalismo e Subjetivismo

18. Toda forma de arte não tem o seu valor?

19. Idealismo Corrompido

20. A Invasão Anti-Idealista

PARTE IV – OS PECADOS DO ENTRETENIMENTO

21. Emoções Irracionais

22. Simbolismo e Filmes Interpretativos

23. Pessimismo e Senso de Vida Malevolente

24. Pseudo-sofisticação

25. Mentalidade Clichê

26. A Importância de Ideias e Inspiração

PARTE V – APLICAÇÕES ESPECIAIS DO IDEALISMO

27. Comédia, Fantasia e Terror

28. Idealismo na Música

29. Idealismo nos Esportes

PARTE VI – CONCLUSÃO

30. O Futuro do Entretenimento

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OUTROS TEXTOS:

- Princípios Estéticos

Feedback Imediato

Densidade Criativa: quantas ideias por minuto tem um filme?

Ganchos e Recompensas

Estilo Acima de Conteúdo

O Fator G do filme

Complementaride: Por que o herói tem que ser incompleto

Princípios de Aristóteles para o Cinema

Roteiro: O Relojoeiro e o Planejador de Viagem

Idealismo e a Teoria dos Arquétipos

Diagramas Complementares

Idealismo e Naturalismo na Direção de Fotografia

Julgando edição e outros aspectos técnicos

5 motivos pelos quais não gosto de Séries de TV

Lista de qualidades estéticas


- Problemas Estéticos/Culturais

A Força Gravitacional da Época

Heroísmo vs. Coragem

O Idealismo é naturalmente comercial

Fortes vs. Fracos: a maior mentira do cinema

A Teleologia do Prêmio

Soft skills não produzem obras-primas

Filmes Nota 6 Salvariam a Indústria

TV Aberta, Monocultura e o Consumo Passivo

Como Salvar o Cinema: Minhas Sugestões

Excitação Reprimida: Sex Appeal e Humor

Redes Sociais e Tecnologias de Rejeição

Cultura: Tongue-in-cheek vs. Straight Face

Testosterona vs. Autoestima

The Critical Drinker - Um Dia de Fúria

Smartphones, Redes Sociais e o Declínio Cultural

Diagrama: A Psicologia do Idealismo e do Anti-Idealismo

Padrãofobia e Virtofobia

Riquezas sem Lastro

Religião vs. Idealismo

Não é só o Cinema que ficou menos divertido

Filmes Autorreferenciais e Crise na Ficção

Casting naturalista

Cultura geek vs. Idealismo

Como a diversidade está arruinando o cinema

1999 e o Declínio da Objetividade

Disney e a coletivização do entretenimento

Como a Cultura Encomenda Seus Ídolos

O Declínio de Originalidade em Hollywood

Herói Envergonhado

Relacionamentos conflituosos

10 Tendências Irritantes em Hollywood


Política:

Cotas de Tela: por que você deveria ser contra

Opinião: Financiamento Público da Cultura

Por que temo mais os "ditadores da matéria" que os "ditadores do espírito"

Pandemia, renúncia, altruísmo e abnegação

Por Que a Esquerda É Mais Intelectual que a Direita


- Ayn Rand e Objetivismo

SÉRIE: Problemas do Objetivismo

Comentários - Filmes Favoritos de Ayn Rand

Filmes Favoritos de Ayn Rand

Ibsen, Rand e Tubarão

Ayn Rand vs. a infiltração Comunista em Hollywood


- Psicologia e Filosofia:

Benevolência como valor fundamental

Dinâmica da Espiral - Insights

Vídeos: Dinâmica da Espiral

Dinâmica da Espiral

Evitando o "Papo Brisado"

Temperamento Ativo e Passivo

Missas e Benevolência

Livre-Arbítrio vs. Causalidade

Desintegração Positiva (Dabrowski)


- Inteligência Artificial





- Música e Variedades





O Futuro do Entretenimento

(Capítulo 30 do livro Idealismo: Os Princípios Esquecidos do Cinema Americano)

Você já se perguntou por que não temos um Mozart hoje em dia? Um Leonardo da Vinci? Ou mesmo um novo Spielberg? Com 8 bilhões de pessoas no mundo certamente não pode ser um problema de falta de cérebros, de “matéria-prima”. E, considerando que estamos na era da internet, nem de falta de acesso à informação. Se hoje em dia temos mais gente, em condições melhores, com muito mais informações e ferramentas disponíveis do que em qualquer outra época, seria de se esperar que a cultura estivesse produzindo coisas muito mais admiráveis do que as que eram produzidas há várias décadas ou séculos atrás. No entanto, não é o que vemos por aí.

Isso é porque que cada cultura colhe aquilo que planta, recebe a arte e os ídolos que encomenda. Não quero invalidar o poder que cada indivíduo tem de se desenvolver independentemente da cultura ao seu redor. Estou apenas apontando o papel que a cultura exerce nesse processo: é como a relação entre uma criança e a casa em que ela cresce. Imagine uma criança com uma inclinação para as artes, mas que cresça em uma casa de médicos, que não levem cultura a sério, ou uma criança com uma inclinação para as ciências, mas que cresça em uma família extremamente religiosa. Se elas forem independentes o bastante, elas ainda poderão crescer e desenvolver seus dons naturais, apesar das influências externas. Ainda assim, me pergunto o quão mais longe elas não poderiam ir caso crescessem num ambiente propício, que potencializasse esses dons desde os primeiros anos.

Na maioria dos casos, os grandes artistas de sua época não são essas flores solitárias que brotam no meio de um deserto, e sim o resultado de um longo processo de seleção natural, dentro de uma área onde existe um grande mercado e muitas pessoas de talento competindo para se destacar (especialmente quando estamos falando de artes como cinema, que exigem grandes investimentos e a colaboração de inúmeros profissionais — é mais fácil para um escritor ou pintor ir contra as tendências do momento do que para alguém que precisa de milhões de dólares para produzir um filme).

Você não terá esse grande mercado e essa seleção natural acontecendo em áreas ignoradas ou desprezadas pela cultura. Nem em valores considerados “fora de moda”. Você só terá isso no que for considerado “quente” no momento, no que for “cool”, popular, no que inspirar na população um real senso de possibilidade, de reconhecimento, de sucesso prático e comercial.

No Brasil, nós nunca tivemos, por exemplo, um solo fértil para o surgimento de grandes diretores de cinema, pois este é um mercado bastante limitado. Agora pense no futebol: quantas crianças estão neste momento praticando, competindo, com ídolos como Pelé e Neymar em mente, e que daqui a alguns anos poderão estar entre os melhores jogadores do mundo?

Quando a cultura ao seu redor celebra aquilo que você tem a oferecer, isso te dá um incentivo único para desenvolver suas habilidades. A possibilidade de sucesso se torna algo palpável, real. Você vê diversas pessoas se destacando na sua área, e isso te estimula, faz você querer praticar, se tornar melhor, além de te dar referências nas quais se inspirar. Sua energia criativa está alinhada com a energia da cultura, e com isso o universo conspira a seu favor.

Se aquilo que você tem a oferecer é desprezado pela cultura ao seu redor, se você só enxerga cinismo, críticas e fracasso comercial pela frente, você dificilmente investirá o esforço necessário para se tornar um mestre naquilo (e dificilmente os outros investirão em você também). Você pode tentar se adaptar, tentar fazer o que a cultura está encomendando, mas dificilmente se sairá tão bem quanto se estivesse alinhado com suas sensibilidades e dons naturais.

O espírito de uma época é definido pelas ideias e pelo Senso de Vida predominante em determinada cultura, num determinado momento. No período Idealista dos anos 70–90, o atraente era projetar alegria, ambição, individualismo. E então todo mundo saiu na corrida para expressar esse tipo de coisa (honestamente, ou por puro pragmatismo, só porque era o que estava vendendo). Isso criou um mercado, um processo de seleção natural, e a partir daí surgiram vários artistas talentosos produzindo esse tipo de entretenimento.

Há 30, 40 anos atrás era muito mais fácil criar Idealismo, pois essa era a mentalidade padrão no meio artístico. Em um ano qualquer como 1990, vimos vários filmes de sucesso alinhados com o Idealismo: Ghost: Do Outro Lado da Vida, Louca Obsessão, Esqueceram de Mim, Uma Linda Mulher — nem todos esses filmes eram obras-primas necessariamente, nem todos eram dirigidos por cineastas autorais, Idealistas convictos, mas eram filmes muito bons, que funcionavam, pois a cultura toda estava alinhada com esses valores: os roteiristas tinham uma mentalidade Idealista, assim como o compositor, o produtor de elenco, o fotógrafo, o figurinista, o eletricista etc. O movimento da autoestima estava em alta no mundo da psicologia, autores como Robert McKee faziam um enorme sucesso em Hollywood com suas palestras sobre técnicas de roteiro, resgatando princípios aristotélicos. Esses valores e técnicas estavam no ar, o artista não precisava lutar e tropeçar a cada etapa e em cada detalhe da produção para atingir um bom resultado, desafiando o senso comum e tendo que explicar o óbvio.

Hoje está todo mundo numa corrida na direção oposta. O importante agora é se posicionar politicamente, discutir questões sociais — não só as pessoas que de fato têm algo a dizer sobre o assunto, mas também pessoas que jamais tocariam nessas questões, e só o estão fazendo pois é o que está dando resultados (há sempre o fenômeno dos artistas camaleões, aqueles que vão trocando de valores e princípios a cada década na tentativa de se manterem relevantes). Os valores são outros, e as expectativas em relação à habilidade e à performance também são outras. Então se você resolve criar algo que vai contra essas tendências, você tem que ser dez vezes mais persistente, dez vezes mais forte, pois você não tem a força da cultura inteira trabalhando a seu favor.

Pense no que seria de Spielberg se ele estivesse começando sua carreira nos dias de hoje. O que ele faria com seu talento natural para criar otimismo, celebrar o espírito da juventude — um dom que estava em demanda nos anos 80, mas não está mais atualmente? Ou pense no que seria de Christopher Nolan se ele tivesse começado sua carreira no início dos anos 80. O que ele faria com sua visão de mundo sombria e sua inclinação para o Subjetivismo, narrativas não lineares, numa época em que nada disso estava em alta?

No mundo do cinema sempre existem exceções, e todo ano sai um punhado de filmes que mostram que é possível realizar algo Idealista com qualidade de produção, e até mesmo obter sucesso comercial, mesmo quando a cultura não está favorável a isso. A Travessia (2015) de Robert Zemeckis foi um bom exemplo, assim como o talentoso O Retorno de Mary Poppins (2018), Missão: Impossível – Efeito Fallout (2018), Ford vs. Ferrari (2019), e até no gênero de super-heróis tivemos um exemplo positivo de heroína com o primeiro Mulher Maravilha (2017), que não precisou apelar para o trágico e decadente para fazer sucesso. Mas são filmes que acabam sendo abafados pelo barulho de filmes como Coringa (2019), que roubam a maior parte da atenção, conquistam todos os grandes prêmios e estabelecem o tom da cultura que vivenciamos no dia a dia. Enquanto essa situação não se inverter, não veremos uma mudança real na cultura em direção ao Idealismo.

Claro que, individualmente, nós não precisamos aguardar a cultura inteira mudar para começarmos a viver nossas vidas, apreciar valores positivos, produzir aquilo que queremos produzir. Há sempre algum público para coisas bem-feitas, e há sempre uma maneira de passar sua mensagem e ser bem-sucedido, mesmo que você esteja indo contra os modismos do momento. A cultura pode apenas tornar esse processo mais fácil ou mais difícil.

É bom lembrar também que a “cultura” não reflete necessariamente os verdadeiros valores da população, pois ela é guiada principalmente por uma elite intelectual influente e barulhenta que nem sempre está de acordo com os interesses do público, e cujos líderes costumam ser bem piores ideologicamente do que o cidadão comum. O fato da maior audiência do Oscar ter sido em 1998 quando Titanic ganhou, e a menor de todos os tempos ter sido em 2020, no ano de Parasita, talvez sugira que não é necessariamente o público que esteja pedindo o Anti-Idealismo atual do entretenimento. Vejo muitas matérias todos os anos falando sobre o declínio da indústria, sobre as pessoas estarem indo cada vez menos ao cinema e dando preferência a ver filmes em casa. Não poderia ser porque os filmes estão cada vez mais tediosos? Não é mais um sinal de que o público no fundo não está tão de acordo com a direção atual da cultura? A teoria de muitos hoje é que apenas produções gigantes como as da Marvel serão exibidas nos cinemas no futuro, e que filmes médios e pequenos irão direto para streaming. Mas não existe uma relação necessária entre o tamanho de uma produção e seu potencial de bilheteria. Hoje talvez exista, pois praticamente todos os filmes são fracos, genéricos, não têm um verdadeiro apelo em termos de entretenimento, portanto, os únicos que conseguem atrair públicos enormes são esses que investem centenas de milhões em publicidade, elencos estelares, que são sequências e remakes grandiosos que o espectador sente que tem que ver mesmo que o filme em si seja uma chatice. Mas, ao longo da história, produções de médio porte sempre estiveram entre as maiores bilheterias do ano — pois tinham ótimos roteiros, boas ideias, atores talentosos e carismáticos. Em 1993, Jurassic Park – Parque dos Dinossauros foi a maior bilheteria, mas no Top 5 também estavam filmes como Uma Babá Quase Perfeita e Sintonia de Amor, produções bem menores. Se filmes como esses saíssem hoje, será que eles iriam direto para o streaming só por não serem superproduções, mesmo tendo o potencial para estarem entre os cinco maiores fazedores de dinheiro do ano? Claro que não, acredito que as pessoas estariam interessadas em vê-los no cinema. Filmes “grandes” sempre têm mais espaço em salas de cinema do que filmes pequenos, claro, mas o que define “grande” e “pequeno” não é o orçamento do filme, e sim seu valor de entretenimento.

Com o tempo, o zeitgeist irá mudar, como sempre acaba mudando. Muitas forças contribuem para isso — eventos globais, guerras, inovações tecnológicas, a dinâmica natural entre uma geração e a geração seguinte. Mas mudanças desse tipo também se devem a indivíduos, criadores, visionários, pessoas que não se enquadram totalmente nas tendências, que não querem apenas ir com o fluxo, e que persistem com suas visões sem perguntar para o público se eles estão preparados para o que eles têm a oferecer.

Ao longo do livro, citei muitas vezes Walt Disney, Steven Spielberg e Michael Jackson, que considero três dos grandes alicerces do Idealismo e do entretenimento americano. Eles certamente se inspiraram em artistas que vieram antes, mas o que eles trouxeram para o entretenimento foi além do que já existia. Quando pensamos em suas criações, e no que existia antes deles surgirem, não encontramos nada igual, nada no mesmo patamar. Entre as referências que eles pegaram, e aquilo que eles criaram, houve uma fagulha, e com essa fagulha eles mudaram a direção da cultura, criaram um novo padrão para a indústria, abriram os olhos dos espectadores para novas possibilidades, para experiências nunca antes imaginadas, e influenciaram tudo o que veio depois.

Uma nova era Idealista eventualmente irá surgir, liderada por indivíduos como esses — criadores insatisfeitos com a cultura do momento, que irão olhar para o passado, resgatar o que havia de bom, aperfeiçoar o que pode ser aperfeiçoado, acrescentar suas novas descobertas, e levar o entretenimento para o próximo estágio de evolução. Pode demorar mais 5, 10, 15 anos, mas essa era inevitavelmente virá, pois o ser humano sempre terá um apetite por felicidade, por prazer, e pelos valores que os tornam possíveis. Este livro é destinado a essa próxima geração de artistas, e a cada membro da plateia que, apesar de todos os ataques e de todas as pressões promovidas pela cultura cínica das últimas décadas, conseguiu manter sua visão do ideal inabalada.

Índice: Artigos e Postagens Teóricas